- guia de um ordinário vernáculo -


quarta-feira, 10 de agosto de 2011

POEMA DE TARDE ALGUMA

POEMA DE TARDE ALGUMA

escrevo olhando
para o vento do entardecer
meu anoitecer se liberta nas
asas de uma canção
as entranhas do meu coração
se contorcem feito pássaros
recentemente libertos
e por isso a poesia
se perde entre os meandros
de nenhum rio que me torna
não-árido
não-seco
úmido.

escrevo ouvindo
o cheiro do pão de algum lugar
e aguardando o sacolejar de
uma voz nas voltas do esvoaçante
presente tão ausente do aguardar
e por isso não há como
descodificar a presente codificação
essa gloriosa comunicação entre dois mundos:
o meu de lá
o meu de cá.

no fim
eu sei o que quero dizer
e sei do que quero me livrar
mas fico até com medo de estar sendo dramático
tenho uma familiar tendência ao teatro que não vem de agora
(se bem me lembro o sangue dos salamaleques ensaiados ou não é herança dominante dos meus sobrenomes)

não há nada
para lamentar
justamente porque nada há.

escrevo olhando para
o morrer fingido do sol
e ouço o lamento sentido
de alguém:

se a ideia da poesia
é me esvaziar

então por que
eu só fico mais cheio
de nada?