- guia de um ordinário vernáculo -


sexta-feira, 21 de agosto de 2015

SÍNTESE DA RECORDAÇÃO

SÍNTESE DA RECORDAÇÃO

caminhando pelos ventos
de nossas andanças
foi que lembrei que
te amo

e enquanto o relógio pesa
o tempo de nossas escolhas
e as possibilidades de outros caminhos
lembrar de você é alívio

os labirintos dos meus erros
são novelos desfeitos
diante do seu olhar

sei das nossas hesitações
e nossa história trabalha
quebrando os abismos
de dois hiatos

recordar meus “nunca mais”
é repetir os meus “pra sempre”
e você sabe disso

os mapas se desvelam eternos
e a revolta fugaz
não dura um sorriso sincero

pois com muita calma
seu passo é breve:
aquele passo
de quem sabe
que minha alma

é seu castelo.

quarta-feira, 4 de março de 2015

UM POEMA FLAVIANO

UM POEMA FLAVIANO

e pelo que contam
disse Deus:
haja luz
e barcos rasgaram o horizonte virgem
e choraram abrãao, isaac e jacó
e narciso enlouqueceu tantas
e Cristo morreu de amor

e contam ainda
que construíram a torre de babel
e capitu moldou cada tijolo
todos feitos de poemas da época de ouro
quando imperadores e faraós dançavam
no escuro e em silêncio
esperando voltar ao pó

e contam mais:
que nasceu iracema do brasil
mais ou menos quando
as divas
em lira se transformaram
e a loucura de bento
nasceu em pleno carnaval

a última coisa que
me contaram
foi do abandono 
absoluto da albânia:
os mosteiros e os gatos
ficaram pra depois

já não mora na cidade das rosas
a dona de muitas linhas
e não espera mais
Santiago Eu:

o que prova
que novas terras
sempre podem ser conhecidas

e que
laços de poesia e tinta
não se desfazem
da noite
pro

dia.

(parabéns! 04/03/2015)

domingo, 16 de novembro de 2014

SENHORA ACORRENTADA

SENHORA ACORRENTADA

a secura do poço
é o fogo perpétuo
criando dilúvios de vento
destruindo as barragens
dos meus inventos

a areia sufocando
minhas vidas e os dedos
e sempre o medo do
tempo
senhor cruel da musa escrava
agora sofrida, agora lacaia

poderia vir o desespero
e as pragas pestilentas
invadindo minhas dunas
destruindo o silêncio
da ágora vazia

mas a água liberta
o duro das pedras
e meus deuses adormecidos
acordaram enlouquecidos
com o batuque de outras

feras.

domingo, 3 de agosto de 2014

O GRITO

O GRITO

ainda não ouvi
meu grito de loucura
e o gesto que farei
quando decidir que basta:

meu grito é fruta verde no pé
o olhar sedendo
a boca aberta
a ânsia santa de conhecer
todo pecado.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

FLAMBOYANT

FLAMBOYANT

perdidos entre flores raras
abrasados sob o clarão vermelho
cores que ninguém ouviu

a hesitação e o beijo
os livros queimando
as testemunhas silenciosas

nem os fantasmas lembram
que um dia existimos
mas você resolveu ficar

o vento nos petrificou
em estátuas de mármore:
mas somos feitos de sal

de nossa escultura quebrada
não ficou nada sob a flor:

não ficaram seus sussurros
nem minhas fugas sem rumo

nem meu apelo banal.

terça-feira, 27 de maio de 2014

DESOLAÇÃO

DESOLAÇÃO

o silêncio marcado a fogo
bocas torcidas, dedos feridos
olhos estéreis
solo e sal

em sua lista costurada
o nada que sangra
e minhas veias entupidas
de vazias esperanças

o fogo inconstruído
língua, névoa dolorida
sua figura que grita
e o olhar ensaiado
antes só dado

a gigantes suicidas.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

FINALIDADE

FINALIDADE

iniciou-se o mundo
há sete dias
através de algumas
palavras

e foram eras formadas
na loucura do desejo

a espera insone
o olhar desperto
a hesitação que
precede toda queda

o pensamento
enlaçou dias
e o pó das sandálias:
estradas tortas

no fim
ele não me segurou
quando desapareci
e o amor de sete dias
foi cera de vela

não restou muita coisa

depois do último beijo

segunda-feira, 28 de abril de 2014

ELOGIO

ELOGIO

em dias como esses
me sinto irremediavelmente vivo
e a certeza me devora
com a força do vento que me assusta
não cumpri ainda nenhuma promessa
e minha vida se arrasta às pressas
meu corpo reluz de culpa
sim, estou errado e não me dói a consciência
pensamento atroz e dolorido
sou uma estátua de mármore
cheia de curvas e roupas enfurnadas
deu-me Deus a dúvida dolorosa
de não saber por qual estrada perco-me
(estava de olhos fechados quando
cheguei ao portão)
morrerei um dia mas sussurra-me alguém
que não é hoje e suspiro:
ainda há tempo de me arrepender
e por isso ignoro os olhares e a cobiça
enquanto tento chamar sua atenção
o que dói em toda gente é a certeza
de que em todo tempo a humanidade
perde um pouco de si:
penso todos os dias na morte
e alguns me repreendem:
ainda sou novo para isso
meu pai um dia me chamou
de velho e foi o melhor elogio
que já recebi:

eu sei que ela
me espreita

logo ali.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

SEGREDO

SEGREDO

é difícil guardar
segredos
de mim mesmo

existem coisas que
eu não posso saber

por exemplo:
eu olho para
você como
quem não olha

olhar para você
é meu sussurro
no ouvido

beijar os dedos
e prometer silêncio

não me conto
que te sonho
e por isso

não existo.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

EXPLICAÇÃO

EXPLICAÇÃO

se falo de amor
e rimo as cores do coração
com a angustia de toda paixão

ou se corro de Deus
só para suplicar de novo
o seu perdão

ou se acho besta a disposição
das pedras e os rostos deles
quando me dizem: ‘esqueça’

ou se homens morrem nas ruas
explodindo com câmeras nas mãos
e todos os dias todos discutem e curtem
a dança da posição e o contorcionismo da oposição

ou se me cansa falar do outro como se fala por aí
todos muito cheios de si a proclamar que a poesia
muda o mundo mas eu mesmo nunca li

ou se me calo diante dos meus irmãos que morrem
por calçarem os saltos que trazem dentro de si

ou se às vezes eu acho que o mundo foi feito pra mim
e me inclino sem saber diante de pessoas que escolho
para me superarem e pisarem com força bem assim

ou se eu volto de novo ao amor
e invento um velho novo amor
e se tudo que eu falo é sobre ele

é porque eu só sei de mim
e sentir  os outros ainda
é muito esforço:

tentativas que não

cabem aqui.