- guia de um ordinário vernáculo -


quinta-feira, 6 de julho de 2017

LINHAGEM

LINHAGEM

escrevo poesia
como quem bebe vinho
aquele outro, o sangue
a taça cheia de carne

escrevo
como se o vinho fosse água
e minhas águas são uma manjedoura

escrevo como se fosse fonte
e pedras rolassem
dos meus dedos quietos
porque eles repousam
no meu colo
quando eu sento como uma
Grande Mãe
e as palavras me sugam
como meus filhos

escrevo poesia
como se o último gole de vinho
fosse diferente do primeiro
e a ânsia que resvala em minha boca
fosse a resposta definitiva
cruel e sincera
revelado que minha taça
são meus ossos
e eu bebo a mim mesmo.



sexta-feira, 21 de agosto de 2015

SÍNTESE DA RECORDAÇÃO

SÍNTESE DA RECORDAÇÃO

caminhando pelos ventos
de nossas andanças
foi que lembrei que
te amo

e enquanto o relógio pesa
o tempo de nossas escolhas
e as possibilidades de outros caminhos
lembrar de você é alívio

os labirintos dos meus erros
são novelos desfeitos
diante do seu olhar

sei das nossas hesitações
e nossa história trabalha
quebrando os abismos
de dois hiatos

recordar meus “nunca mais”
é repetir os meus “pra sempre”
e você sabe disso

os mapas se desvelam eternos
e a revolta fugaz
não dura um sorriso sincero

pois com muita calma
seu passo é breve:
aquele passo
de quem sabe
que minha alma

é seu castelo.

quarta-feira, 4 de março de 2015

UM POEMA FLAVIANO

UM POEMA FLAVIANO

e pelo que contam
disse Deus:
haja luz
e barcos rasgaram o horizonte virgem
e choraram abrãao, isaac e jacó
e narciso enlouqueceu tantas
e Cristo morreu de amor

e contam ainda
que construíram a torre de babel
e capitu moldou cada tijolo
todos feitos de poemas da época de ouro
quando imperadores e faraós dançavam
no escuro e em silêncio
esperando voltar ao pó

e contam mais:
que nasceu iracema do brasil
mais ou menos quando
as divas
em lira se transformaram
e a loucura de bento
nasceu em pleno carnaval

a última coisa que
me contaram
foi do abandono 
absoluto da albânia:
os mosteiros e os gatos
ficaram pra depois

já não mora na cidade das rosas
a dona de muitas linhas
e não espera mais
Santiago Eu:

o que prova
que novas terras
sempre podem ser conhecidas

e que
laços de poesia e tinta
não se desfazem
da noite
pro

dia.

(parabéns! 04/03/2015)

domingo, 16 de novembro de 2014

SENHORA ACORRENTADA

SENHORA ACORRENTADA

a secura do poço
é o fogo perpétuo
criando dilúvios de vento
destruindo as barragens
dos meus inventos

a areia sufocando
minhas vidas e os dedos
e sempre o medo do
tempo
senhor cruel da musa escrava
agora sofrida, agora lacaia

poderia vir o desespero
e as pragas pestilentas
invadindo minhas dunas
destruindo o silêncio
da ágora vazia

mas a água liberta
o duro das pedras
e meus deuses adormecidos
acordaram enlouquecidos
com o batuque de outras

feras.

domingo, 3 de agosto de 2014

O GRITO

O GRITO

ainda não ouvi
meu grito de loucura
e o gesto que farei
quando decidir que basta:

meu grito é fruta verde no pé
o olhar sedendo
a boca aberta
a ânsia santa de conhecer
todo pecado.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

FLAMBOYANT

FLAMBOYANT

perdidos entre flores raras
abrasados sob o clarão vermelho
cores que ninguém ouviu

a hesitação e o beijo
os livros queimando
as testemunhas silenciosas

nem os fantasmas lembram
que um dia existimos
mas você resolveu ficar

o vento nos petrificou
em estátuas de mármore:
mas somos feitos de sal

de nossa escultura quebrada
não ficou nada sob a flor:

não ficaram seus sussurros
nem minhas fugas sem rumo

nem meu apelo banal.

terça-feira, 27 de maio de 2014

DESOLAÇÃO

DESOLAÇÃO

o silêncio marcado a fogo
bocas torcidas, dedos feridos
olhos estéreis
solo e sal

em sua lista costurada
o nada que sangra
e minhas veias entupidas
de vazias esperanças

o fogo inconstruído
língua, névoa dolorida
sua figura que grita
e o olhar ensaiado
antes só dado

a gigantes suicidas.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

FINALIDADE

FINALIDADE

iniciou-se o mundo
há sete dias
através de algumas
palavras

e foram eras formadas
na loucura do desejo

a espera insone
o olhar desperto
a hesitação que
precede toda queda

o pensamento
enlaçou dias
e o pó das sandálias:
estradas tortas

no fim
ele não me segurou
quando desapareci
e o amor de sete dias
foi cera de vela

não restou muita coisa

depois do último beijo

segunda-feira, 28 de abril de 2014

ELOGIO

ELOGIO

em dias como esses
me sinto irremediavelmente vivo
e a certeza me devora
com a força do vento que me assusta
não cumpri ainda nenhuma promessa
e minha vida se arrasta às pressas
meu corpo reluz de culpa
sim, estou errado e não me dói a consciência
pensamento atroz e dolorido
sou uma estátua de mármore
cheia de curvas e roupas enfurnadas
deu-me Deus a dúvida dolorosa
de não saber por qual estrada perco-me
(estava de olhos fechados quando
cheguei ao portão)
morrerei um dia mas sussurra-me alguém
que não é hoje e suspiro:
ainda há tempo de me arrepender
e por isso ignoro os olhares e a cobiça
enquanto tento chamar sua atenção
o que dói em toda gente é a certeza
de que em todo tempo a humanidade
perde um pouco de si:
penso todos os dias na morte
e alguns me repreendem:
ainda sou novo para isso
meu pai um dia me chamou
de velho e foi o melhor elogio
que já recebi:

eu sei que ela
me espreita

logo ali.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

SEGREDO

SEGREDO

é difícil guardar
segredos
de mim mesmo

existem coisas que
eu não posso saber

por exemplo:
eu olho para
você como
quem não olha

olhar para você
é meu sussurro
no ouvido

beijar os dedos
e prometer silêncio

não me conto
que te sonho
e por isso

não existo.