- guia de um ordinário vernáculo -


sábado, 31 de dezembro de 2011

FINAL ENIGMA

FINAL ENIGMA

então você vê?
sou um alguém confinado
ao mistério de almas outras
uma esfinge em pele de menino
- dizes agora: homem –
já nasci devorando quem
não conseguiu decifrar-me

então não vê
que mesmo sem querer
o que eu gosto em você
é a facilidade com que acaba
com meus mistérios

faz minha rima parecer boba
a poesia não preenche
não basta e não muda

porque me amas no claro
já não me escondo no escuro
não preciso ser cego
tenho o quê?
tenho alguém.

eu quero olhar.

então me parece
que
vês?

o cego sou eu?
ou quem não enxerga é você?

e a dificuldade de largar
os ciúmes do passado
e abrir os olhos para o
futuro e para o presente
mesmo!
por que não?

todos me entendem
ou eu acho que todos
são você?
e você é o meu ‘todos’
entende
vê?

transformei-te
em alguém que me decifra
e meu difícil enigma
não foi para você
- nem de longe –
uma quebra de paradigma

e é por isso
meu amor
que
sua presença
me inspira.

31/12/2011

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

INÉDITO

INÉDITO

é mágica
sua química
de mudar a composição
de minha rima

é mágica
minha nova sina
de te ter no centro
das minhas linhas

é rápida
a poesia
já que o tempo
que destinava
às despedidas

hoje é
medida que perco
e encontro
quando beijo
o amor
que modificou
minha vida


15/12/2011

sábado, 22 de outubro de 2011

URGÊNCIA

URGÊNCIA (II)

é preciso lembrar
que necessito
te envolver
que preciso
te enlaçar
que é urgente
te abraçar

é preciso dizer
que eu quero
me afogar
nesse fogo novo
que purifica
o sentido do amar

é preciso confessar
que quero me entregar
mesmo com medo
de outra vez
de outra vez
de outra vez
me machucar

mas de uma coisa
tenha certeza:

passou essa
inútil estranheza
e já não tenho receio
de encontrar
por acaso
a felicidade

porque
você veio há pouco

mas já está comigo
há muito.

22/10/2011

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

I

I

se mesmo falando que
estava fechado por inteiro

e se mesmo no meio
dos dias loucos que correm

eu de novo quero ser
o derradeiro

e se de repente eu me vejo assim
com a poesia na ponta do dedo

percebo que ainda ter tempo
para pensar e lembrar e sorrir

é sinal
que
felizmente

(o coração
adora contrariar a mente)

eu não me perdi
de mim.

13/10/2011

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

DE NOITE

DE NOITE

aqui perto
existe um
saxofonista
que transforma
minhas tardes
minhas noites
minha vida
e traduz
minhas loucuras
em bonita melodia

ontem ele
estava tocando
um jazz lento e triste

hoje ele
percorre notas
alegres e contagiantes



eu

fechei os olhos
e suspirei bem fundo
e
o jazz me acompanhou
profundo

- desconfio que ele também consiga ouvir minha solidão.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

POEMA DE TARDE ALGUMA

POEMA DE TARDE ALGUMA

escrevo olhando
para o vento do entardecer
meu anoitecer se liberta nas
asas de uma canção
as entranhas do meu coração
se contorcem feito pássaros
recentemente libertos
e por isso a poesia
se perde entre os meandros
de nenhum rio que me torna
não-árido
não-seco
úmido.

escrevo ouvindo
o cheiro do pão de algum lugar
e aguardando o sacolejar de
uma voz nas voltas do esvoaçante
presente tão ausente do aguardar
e por isso não há como
descodificar a presente codificação
essa gloriosa comunicação entre dois mundos:
o meu de lá
o meu de cá.

no fim
eu sei o que quero dizer
e sei do que quero me livrar
mas fico até com medo de estar sendo dramático
tenho uma familiar tendência ao teatro que não vem de agora
(se bem me lembro o sangue dos salamaleques ensaiados ou não é herança dominante dos meus sobrenomes)

não há nada
para lamentar
justamente porque nada há.

escrevo olhando para
o morrer fingido do sol
e ouço o lamento sentido
de alguém:

se a ideia da poesia
é me esvaziar

então por que
eu só fico mais cheio
de nada?

quarta-feira, 6 de julho de 2011

DE NOVO A CARA PÁLIDA

DE NOVO A CARA PÁLIDA

o não escrito
não gera grito.

o não sentido
não atrai olhares.

o silêncio imposto
me faz ser grato.

o que não se fala
as vezes se percebe.

os mesmos lugares
me induzem ao erro.

as mesmas pessoas
me conduzem ao acerto.

o tempo passado
muda a espera.

o presente poema
me reinaugura.

o novo vazio
é o que me preenche:

de novo
o que se diz
é o que se sente.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

SÍNTESE ou SUBLIMINAR ou NOVA FORMA MINHA DE AMAR

SÍNTESE ou SUBLIMINAR ou NOVA FORMA MINHA DE AMAR

solar tempestade
que quebrou os ares
e revirou as pedras
e que apagou as velas
e nos empurrou para
um tumulto tumular
e atingiu (em desvio de reta)
minha saudade em tratamento
e em processo de decantação

– sendo que dela
não fui nem sou
rei capitão soldado
peão –

revelou-se como
oportunidade de calmaria
e de aquietar a gritaria
de plantar adubar esquecer
meus pés no chão

surpresa surpresa
pra mim
foi me ver
guerreando com
unhas dentes dedos e palavras
escravizando minha eloquência
ingrata (nata)
para que você(s) suspire(m)
em alívio
(a elysian peace)

mas me importei?
você se importou?
quem se ligou na
loucura dessa vasta
situação tão tão tão
estranha que até os
deuses se recolhem
nas praias abandonadas
gratos por já não serem
adorados e não precisarem
trabalhar para sanar o prejuízo
que um estranho causou?

surpresa surpresa
pra mim
foi querer sua felicidade
e odiar os mares
que invadem a tranquilidade
de uma história que não
diz respeito a quartos a quintos
a uns intrusos mesquinhos...

o que é verdade
é que cheguei na
maturidade
e entendi que sou
o quebra-mar
de um sertão
que não corre
riscos

não me importo
se não mais
me lês
ou se não me
darás nunca
a resposta que
anseio
(anseio e desejo mesmo?
será que me converti de fato
à religião da Espera?)

estou bem.
sentado. esperando.
recostado.
   manso.
esperando essa tempestade
de poeira baixar
o sol apagar
o teatro fechar
o impossível se completar:

dessa história
não sou
rei
capitão
soldado
ladrão
ou menino bonito

porque, meu bem,
fechei com você

meu

coração

08/06/2011

quinta-feira, 2 de junho de 2011

meus recados

“Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.”

Escrevo para você mil poemas e não mando nenhum. Te olhava e perfurava os seus olhos com meu desejo e meu querer, mas agora só te envolvo com o canto do olho. Interpreto e finjo efusividade, enceno felicidade.
Quero ser notado por você, quero pensar que você me olha e, sei lá, pensa no que foi no que é no que pode ser será? E quando falam algo que você ouve eu ouço e era como se eu falasse o que você não me deixa recitar no seu ouvido? Será que você entende e decifra a minha fala dita por outras línguas?
E no seu mundo, hein?
Não vou entrar explorar viajar no sentimento que eu sinto e que está como que suspenso gemendo querendo?
E eu, meu bem?
Que nunca acreditei nesses signos, olho horóscopo de jornal e sorrio quando nossos astrais imaginários se ligam se coligam se combinam e ficam lindos lado a lado: nem parecem inventados.
E a injustiça? Esse negócio que me deixa que nem um louco embrutecido. Enquanto eu penso, outro faz. Ai.
Vou me convencendo que a persistência é diferente da paciência, sendo esta maior ou igual àquela? Por quanto tempo ficarei em pé na chuva olhando para a janela do seu quarto?
Romantismo?
Não! Enterrei meu caixão de romântico e assumi o realismo dos dias que correm.
Mas essas palavras não dizem nada, especialmente nessa data, nessa hora, agora, onde nada que eu faça convencerá que talvez valha à pena se aventurar e se jogar no magma.

Eu escrevendo você: meu dia vira farra. Eu pensando em você: meu mundo nunca passa. Eu sem você: esse tempo que acaba.

terça-feira, 31 de maio de 2011

RENDIÇÃO CONSTATADA

RENDIÇÃO CONSTATADA

a total ilusão
se torna minha guia
nessas noites tão frias
em que sua nunca
sentida presença me desafia

a total desilusão
me tortura de forma
tão lenta e macia
que me faz implorar
pelo ápice pelo clímax
pelo fim dessa eterna lida

a total solidão
que me mastiga
me tira o viço
me tira o brilho
me tira a voz
e meus conhecidos gritos
me rouba do hoje
me coloca no ontem do ontem
me perde no horizonte
me deixa louco
me cospe morto

escrevo por hábito
respiro por passo marcado
sorrio por não saber
como continuar meus atos

pode ser o efeito
da dor
do frio
do desejo
e da insanidade

mas, meu amor, eu não vejo
motivo em continuar vivo
se posso morrer
de vontade
e de saudade
de você

31/05/2011

terça-feira, 24 de maio de 2011

TRATADO DE TEOLOGIA

TRATADO DE TEOLOGIA

a ausência que constatei
logo ao acordar
nascimento de uma vida
feita de retorcimentos
e o entendimento, a percepção
a construção de certa linha de pensamento

morto, não encontro vida após o desamor
não encontrei recompensas nem os encantos
vários, prometidos a mim por séculos de profetas
e de poetas santos que cantam desde o mais
belo dos cânticos dos cânticos
(não só os de salomão),
mas também não os procurei

alcanço e canso da iluminação
prefiro o escuro o frio a solidão
e a negação de todo o verso vegetariano
há o espírito, há os que foram carcomidos
pelo vírus inibido e falso tímido do Sem Sentido

versos que possuem a santidade com uma
invejável facilidade me saem de dentro e não
me tiram um isso da dor de morto, vê?
percebo que é real quando não consigo sorrir
percebo que é real e eterno até o fim do dia
quando não existe a vontade de escrever

mas me obrigo: minha busca minha aventura
me valida me justifica perante a corte, me ajuda
a arquivar o processo das santas dores
tribunal Daquele que aos poucos vou
compreendendo e bendizendo em voz baixa
para não assustar quem ainda não entendeu:
sou altruísta e pouco me importo com meus
companheiros de bingo grito grito venço

só encontro a paz quando não entendo
e Dele não me aparto
eu quero é ser alado
alado do seu lado

falar de forma anárquica sobre o sentido de Deus
me faz sentir um ardor de coisa nova de libertação
de certeza de excomunhão mas de uma nova e mais
pura união com Aquele que me ajuntou em mim

se ainda temo e sigo os mesmos preceitos
e defendo com o fogo os mesmos anseios
e se amo de forma firme os dogmas aceitos
me provo o mesmo com ideias novas mas antigas
me sinto fora mas me vejo dentro com uma recíproca
totalmente verdadeira

eu mesmo iniciei meu processo
de canonização
a gratificação
de captar que fuga desse presente terror
é falar e falar loucamente
não me importar e (a)teologar sobre
Aquele
Outro
Amor.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

VELHO PAPO ou SERÁ QUE SEREI ou MEDO ou DESEJE!

VELHO PAPO ou SERÁ QUE SEREI ou MEDO ou DESEJE!

hei de ser cúmplice
dos maus tratos que
me fazes?
há muito tempo me
descobri escravo do
instante e (des)confio no
poder da poesia

hei de ser sempre o
mesmo que você enterra?
falta-me a coragem e a força
para agora travar uma luta enorme
mas continuo fogo (fátuo)
recusando-se ao inacabado

hei de continuar conflito infinito?
há o desejo e a vontade de procurar
mas o indômito medo de sua altivez
e do desprezo que você me reserva
me queda paralisado: calo

hei de ser para sempre solidão?
não, não caio nessa ilusão
mas sou todo - nesse momento -
um inútil furacão:

não destruo um centímetro de sua
incrível
(e por isso mesmo ridícula)
(falta de)
convicção

mas teimo em sonhar com
a vontade de amansar-te
de enlaçar-te de desperdiçar-te
de enfim amar-te amar-te com uma
força tão grande e surpreendente
que você
quando experimentasse
diria:

- e por que demoraste, fazedor de arte?

20/05/2011

terça-feira, 17 de maio de 2011

REVIRA VAI E VOLTA

REVIRA VAI E VOLTA

há uma censura na minha
forma de sentir e agir o presente

cuido para que o verbo errado
não entregue o verso
que tento esconder de você

sorrio e grito
efusivo
mas continuo morto
passivo de tudo
terra improdutiva e perdida
tudo plantando nada dá

meu desejo é escrever
abertamente sobre o Não
e sobre o convencimento que
meu coração impiedoso insiste
em não acreditar:
me prendi e me joguei no mar

mas há a ditadura imposta (por mim)
que persiste em me derrotar
desminto os gestos do dia e me rendo
cativo que não consegue se revoltar

vejo a felicidade
que eu poderia ter
enlouqueço estremeço
não obedeço

a questão é que
me vejo
humano

me querendo
insano

terça-feira, 10 de maio de 2011

ROMANTISMO RENITENTE

ROMANTISMO RENITENTE

você vai ser
mais um amor
que jamais tive
e estou me esforçando
para pintar o teu retrato
e colocá-lo na vasta
galeria dos suspiros passados

devo isso ao seu amor
devo respeito a quem te tem
devo amor ao meu próprio amor
vago amor que me tenho também

renuncio
abdico
pulo as liturgias do luto
o odor sonoro e fúnebre
dos adeuses

com esse poema árido
(pateticamente
ridiculamente
renitentemente
romântico)
me despeço e ouço Bach:

não aguento mais
esperar
e
inventar

10/05/2011

sábado, 7 de maio de 2011

MALABARES

MALABARES

vou fazer
malabarismo
queimar o circo

andar no arame
me fechar na jaula
dormir com o elefante

vou roubar o mágico
encantar meu lado
deixar de atos falhos

vou encarnar o palhaço
rir dos meus tediosos casos

vou fugir da caravana
me deitar na minha cama
esquecer desse tolo drama

vou abrir falência
já rasguei a lona!

cansei de ser
dono de circo

virei artista
equilibrista
malabarista:

vou dar
meus pulos
juro!

domingo, 1 de maio de 2011

DEFINIÇÕES II

DEFINIÇÃO VIII

poetizar
é tricotar
as meias que vão me
aquecer quando eu
não mais conseguir
encontrar você

DEFINIÇÃO IX

teimosia
é abrir os olhos
e imaginar

DEFINIÇÃO X

inconformismo
é dormir sozinho


DEFINIÇÃO XI

paixão
é abrir mão
da normalidade
e por prazer
alegar
insanidade

01/05/2011

sexta-feira, 29 de abril de 2011

DEFINIÇÕES

DEFINIÇÃO II

insanidade
é o que desenvolvo
quando passas devagar
e seu cheiro fica no ar

DEFINIÇÃO III

confusão
é um lugar estranho
onde você me deu
casa comida roupa lavada
e olhares para sofrer

DEFINIÇÃO IV

culpa
é o cordão amarrado
no olho:
renitente lembrete

DEFINIÇÃO V

impossível
é o que você
me fala
quando eu te olho
e você olha pra ele

DEFINIÇÃO VI

solidão
é calar
e sentar
do seu lado

DEFINIÇÃO VII

alegria
é uma pílula
em falta no mercado

quarta-feira, 27 de abril de 2011

prosas rápidas

27/04/2011

Me definiram como metalinguista: quando não estou desesperando o meu impossível amor, estou falando sobre o fazer poético. No fundo, para mim, é tudo a mesma coisa: metafísica, metalinguagem, metapaixão. Drummond disse que não admite que se chame de poeta quem poetiza por dor de cotovelo. Olha, Drummond, meus poemas se confundem tanto com a dor, com o sofrimento e com o amor por um só motivo: minha vida é isso.

***
“Tenho direito ao grito”. Escrever é a minha forma de gritar. Não é a única, mas é a que eu mais gosto. Tô escrevendo para me entender e para me divulgar ao mundo. Me acham meio arrogante: talvez eu seja mesmo, mas não o sou por maldade. Só acho que a falsa modéstia é uma desnecessária interpretação para si mesmo. Escrevo para mim (gosto de minhas poesias, gosto do meu jeito) e para os outros. Sou confuso demais para me fechar em mim mesmo, por isso me torno interessante. Escrevo para dizer que gosto, que quero, que não tenho. Escrevo para não dizer nada, para dizer muito, para escoar o excesso de letras que se amontoam em minhas mãos. A escrita, para mim, já é uma Entidade. Sou dEla e Ela me governa. Discípulo (in)fiel, não passo um dia longe de seus ensinamentos: adoro me perder nesses caminhos.

***
É uma situação muito engraçada. Uma amiga minha me disse que não sou volúvel: sou volátil. Gosto e desgosto com uma velocidade estonteante. Não aprovo isso, mas sou assim. E não me sinto leviano ou superficial ou culpado. Quando eu gosto, gosto profundamente e muito. De vez em quando caio nesse estado de profunda melancolia, numa tristeza e num silêncio que não são meus. Toda minha alma é a revelação do coração: fico mais velho do que sou, mais corcunda, um idoso precoce na precocidade de minha juventude (madura?). Tudo isso são sintomas da doença do calar. Quando escancaro as portas e as janelas e deixo o híbrido filhote do silêncio e da paixão saia, me sinto, por gloriosos segundos, mais moço. Não digo mais livre por que quem escolhe viver na incansável luta diária consigo mesmo não é livre nunca. Liberdade significa abrir mão, e eu ainda não sou austero desse jeito. Sou é doido por me contradizer todos os dias e me calar. Fico triste, mas Santa Tereza disse que tudo passa... Tereza, meu bem, “se tudo passa como se explica o amor que fica nessa parada”?
Hein?

terça-feira, 26 de abril de 2011

DEFINIÇÃO

DEFINIÇÃO

masoquismo
é querer
que você
saiba

quinta-feira, 21 de abril de 2011

PLANETARIAMENTE INDIRETO

PLANETARIAMENTE INDIRETO

dizem que estão nos anéis de saturno
homens noturnos
falam soturnos essas rimas
que só servem para a repetição
infinita – vida eterna à poesia
que não serve pra nada
só serve para o meu nada

não tente ver como são
os homens
se assustaria pois se veria
na contradição que forma
o puro átomo da presença
que constitui o enorme vazio
que institui a vida nesses
dias estranhíssimos em que tentamos não viver

cheio de ciúmes
de rara espécie
inexplicável injustificável
impossibilitado de colocar
a ciumeira para fora
para outro universo
para outro planeta
quiçá para outra freguesia
outra distante mas vizinha
que o ciúme me deixa
morto mas calmo
por me saber mais louco

vou me descobrindo
volúvel
mais que volúvel
inconstantemente irresolúvel


20/04/2011

terça-feira, 19 de abril de 2011

VIA DOLOROSA

VIA DOLOROSA

minhas heresias estão
passando dos limites

temo que a inquisição
esteja vindo me buscar

furei os olhos do deus
que não quer me ver pecar

espectro das abstrações santas
enterrei as velas estranhas

toco em fúria as mil matracas
cantando o terror da ignorância

santidade marcada pra acontecer
rezo que se repita ao bel prazer

o sussurro do Deus real e bondoso
que me diz:

essa semana
nem sempre
é a mais
branda


19/04/2011

sábado, 16 de abril de 2011

COMPLACÊNCIA

COMPLACÊNCIA

toma tento na vida, matheus
toma rumo na lida
toma jeito na vencida arte
de tentar ser homicida

cala boca, matheus
fica quieto e atina:
a época é de mentira
de silêncio e de intriga

não reaja, matheus
não aja não faça nada
se joga pra dentro da mala
reforma essas velhas metáforas

cale, matheus
não diz que sente
não vá tentar ser incoerente
tente entender
que seus sentimentos
são extremamente
impertinentes

não liga, matheus:
desliga
se distrai
retrai
abstrai

não fala nada
só faça olhar
quem não te tem
não pensa em lutar

quinta-feira, 14 de abril de 2011

ERA UMA CASA MUITO ENGRAÇADA

ERA UMA CASA MUITO ENGRAÇADA

foi com temor
que vi
aquela casa de loucos

preso entre quartos tortos
preso entre santos doidos
preso entre mentirosos tolos

foi com temor
que deitei e calei
diante de tanta loucura
dessa casa de loucos

me calei por espanto
porque calar é melhor
e só fala quem mente
e blasfêmias são normais
acho que deus nem se ofende
porque esse deus não pode ser
Deus
(esse que não se entende)


um tenta ser mais louco
que o outro
é um jogo
de superação
ergue-se o tijolo lamentoso
e assim forma-se a casa dos doidos

doidos esses
que se vestem muito bem
que falam muito bem
que vivem muito bem
obrigadíssimo

doidos esses
que quando pisam fora
do seu território
viram sãos amores

pessoas melhores nunca se viu na corte

mas o estranho mesmo
mais que conhecer e falar
dessa casa de doidos
é descobrir
sem surpresa
que eu sou
dentre todos
o maior

louco.

14/04/2011

sexta-feira, 1 de abril de 2011

POEMA PARA O DIA DA MENTIRA

POEMA PARA O DIA DA MENTIRA

fui me declarar
recebi um sorriso
recebi um beijo
recebi um abraço
um “muito obrigado
como você demorou”
nos olhamos nos olhos
nos amamos a bordo
caímos no chão
rimos a noite inteira
portamos nossa bandeira
e descendo aquela ladeira

cantamos dançando
felizes por simplesmente
estarmos felizes naquele
grande e sincero
dia.

carol minha amiga carol

carol minha amiga carol
hoje esse poema não vai falar de amor
- mentira, vai sim –
vai falar do meu amor, carol,
por você.

carol minha amiga carol
falamos hoje de você
e lembramos que te amamos
e olhe que eu não tenho seu telefone
e eu queria te ligar pra cantar
(e olha que eu nem sei cantar)
que eu gosto tanto de você
carol minha amiga carol.

a vida é assim
e nessas horas
nem se tem o que falar
só se tem o abraço
que eu juro que vou
te dar.

carol minha amiga Carol
você é linda
por fora por dentro
por tudo que é lado
porque sua alma
tenta com afinco
ter o céu alado.

carol
minha amiga
carol
hoje essas letras minhas
são suas
pra te lembrar que gosto
de você
e esse é meu jeito
de demonstrar.

01/04/2011

quarta-feira, 30 de março de 2011

HABLAR

HABLAR

sofrer em silêncio é coisa de santo
sofrer e calar e minguar sem nada falar?
coisa de doido! coisa de mártir
sofrer e não falar e não gritar

o quanto eu quero o quanto eu quero
os seus olhos
é incompreensível, coisa sem sentido
coisa do encardido:

pra pagar as lágrimas falsas
derramadas por falsos amores
o diabo colocou no meu peito
uma paixão de verdade
dessas que nos deixam morto.

pronto
falei
agora vê se entende,
tá bem?

segunda-feira, 28 de março de 2011

ECO DE UM POEMA

ECO DE UM POEMA

tenho escrito uns poemas
impublicáveis, queimáveis
extremas verdades que são
perigosas por conterem um nome.

eles contém seu nome e sua indiferença,
seu modernismo e o meu romantismo
(esse enorme simbolismo),
falta tudo, a carestia é grande,
escrevo tua rima
faço teu nome.

se feliz rio se sofro choro
se choro grito se grito oro
se feliz choro se infeliz choro
se triste rio e doido
crio.

(estando você tão perto
e não podendo eu nada fazer
senão olhar e sorrir)

já que estou perdendo
a serenidade e a sanidade
grito teu nome, faço tua rima.
ouvistes?
teu nome é segredo,
só disfarço e faço rima,
ouve o eco já que seu nome
é minha sina
tua rima
minha rima
minha
minha
ruína.

terça-feira, 22 de março de 2011

REVEILLON

REVEILLON

Chega!
cansei de enfiar bilhetinhos nas fendas
dos meus inúmeros muros das lamentações!
não vou mais me desesperar,
hoje eu resolvi mudar, meu ano novo começa hoje!

Chega!
o ano novo é amanhã, fiz dessa noite o meu
reveillon! não importa o tamanho da beleza:
não vou me prostituir, não vou ficar definhando,
sonhando esperando escrevendo por alguém
que nem olha os meus escritos!

Chega!
cansei de suspirar e confluir meus sentimentos
e não ser visto nem ouvido nem percebido!
hoje eu decidi gritar chega! e o meu chega!
é real, é a última vez que me arrasto nos corredores
lamentando te ver depois da curva.

Chega!
meu ano novo vai ser feliz, não importa
se ontem eu era homem velho e morria
de ciúmes por um beijo um olhar um abraço
que você dava! isso é pra quem não tem resoluções
novas de transformação, e isso eu hoje adquiri!

Chega!
você pode ficar aí sendo o que você é,
sem culpa de ser assim: uma pessoa desatenta.
como é que não percebeu meus olhares kamikazes e fuziladores?

Chega!
feliz ano novo, matheus! feliz ano novo, cambada!
eu resolvi mudar e não importa se só muda o dia
e as pessoas são as mesmas: a ilusão do radicalismo
me anima.

cansei de gente cega.
conviver com gente de alma estrábica me embrulha o estômago.

feliz ano novo!


22/03/2011

sexta-feira, 11 de março de 2011

MENSAGEM ATUAL DO ORÁCULO DE DELFOS

MENSAGEM ATUAL DO ORÁCULO DE DELFOS

Anda,
vem comigo escrever idílios
nos meus suplícios,
fazer graça, grasnar, o riso,
vem folhear o meu bestiário,
meu mostruário, meus monstros,
meus amores de ontem.

Anda,
olha e repara minha casca,
já está se rompendo
(efeito do tempo) mas ainda luto
para essas águas não apagarem
a cruz feita com minhas cinzas.

Anda,
conto três preces, canto,
brinco, dedilho, bêbado de sonhar,
ressaca e dor de olhar, a alegria
de escrever sobre mim,
dormir, quiçá acordar numa fuga
de hoje de manhã.

Anda,
apressa o passo, pega o dicionário
e o cavalo e tenta me entender:
é março, é cedo, foi carnaval e agora
é tempo de roxo, de recolher os cacos
e guardar tudo bem guardado em um velho sacrário.

Anda,
o oráculo canta, manda, te encanta:
provoca, acorda, convoca,
entenda, pressinta, se joga!,

aperta, num salto, nossas esporas,
compreende, de tudo,
a incerta vitória.


11/03/2011

quarta-feira, 2 de março de 2011

MINHA MULHER QUE PASSA

atenção, esse é um poema erótico. puritanos de plantão, poupem-se.

MINHA MULHER QUE PASSA

“Meu Deus, eu quero a mulher que passa”
Vinícius de Moraes

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como eu quero essa mulher, meu Deus,
essa mulher que não é nenhuma das que
comem e carcomem (e cospem) meu coração,
e por isso mesmo tem essa força de tufão,
provoca a vertigem de um furacão no jeito
que atravessa a rua, meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Meu Deus, eu quero essa mulher,
eu quero passar a mão onde só ela passa,
quero poder ser desrespeitosamente amoroso,
poder morder essa orelha e apertar suas bochechas
e arrancar essas madeixas e lamber...
ah... lamber com prazer você sabe o quê.

Meu Deus, eu quero ser devasso com essa mulher!
Essa mulher que passa e não deixa marcas, essa mulher
que é tão fácil nos meus pensamentos, uma gostosa
de família, decente e desconcertante!

Mulher que passa, me deixa ser seu deus que repara
nas suas coxas nos peitos na língua na roupa que não usas...

Mulher feita de um olhar!
Boa mulher feita de um olhar!

Como é bom ter você num átimo,
e te comer com os olhos sem que você repare,
e passear sozinho no sábado e descansar no domingo
sabendo que na segunda feira te verei no meu prostíbulo!


11/02/2011

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

ORAÇÃO FEITA COM OS OLHOS OU ODE À BELEZA ENLOUQUECEDORA OU MEU NOVO CREDO OU SÍMBOLO DAQUELA FORMOSURA OU ODE À BELEZA ENSANDECIDA

ORAÇÃO FEITA COM OS OLHOS OU ODE À BELEZA ENLOUQUECEDORA OU MEU NOVO CREDO OU SÍMBOLO DAQUELA FORMOSURA OU ODE À BELEZA ENSANDECIDA

Beleza nata, fixada nas pálpebras,
criada em mim depois de existir,
feita da mesma substância do desejo;
por você muita coisas foram feitas
e por mim, para minha perdição,
não se digna a baixar os olhos para
meus acenos envergonhados.

Beleza gravada na retina: fixa.
Beleza ditadora, não chega à causar dores,
mas cansa olhares, arrasta pelas correntes
o seu fiel devoto silencioso.

Beleza assustadora: ofuscante.
Um imã tão poderoso que não faz
meus olhares descuidados e imaginativos
se configurarem em cobiça e em negação
do sexto
mandamento:
ação tão natural que é quase um louvor
ao Criador
de tal
Criatura despretensiosa (?).

Creio que a minha loucura está próxima
(nunca vivi tão próximo de uma loucura causada pela beleza; controlo-me todos os dias, suspiro todas as horas, olho todos os minutos).
Confesso que nada espero
(e isso assumo sem receios: há muito cansei dos doutos doutores especialistas na hermenêutica de matheus).
Espero minha libertação
(depois de longos olhares que percorrem as linhas de sua beleza [minha loucura]).

Creio, Confesso, Espero.
Formulo, Dogmatizo, Não Realizo.
Rezo, Não Desprezo, Embelezo seu Eu.

Cego
nesses desassossegos
sou teu.

Amém?

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

ACONTECIMENTO POSTERIOR FUTURO

ACONTECIMENTO POSTERIOR FUTURO

Ela dizia vem
ele vinha.
Ela dizia vai
ele ia.
Ela dizia fica
ele ria.

Um dia
ela soltou a coleira
e disse volta,

e ele voltou
deu dois tapas
na cara
cuspiu
e saiu andando pela rua
(meio perdido, mas orgulhoso)
livre pela primeira vez na vida.


10/02/2010

sábado, 15 de janeiro de 2011

CONFORMAÇÃO

CONFORMAÇÃO

Eu me conformei
em virar vigia,
me consumir noite e dia
imaginando com aflição
onde andas onde cantas
onde será que encantas
outros bobos por aí...

Eu me conformei
em virar vigia,
em não sofrer durante o dia
e me desesperar durante a noite,
fazer vigílias e acender a poesia
que queima aquilo que alguns chamam
de...
coração.

Eu me conformei
em virar teu vigia,
em ser discreto
(mas não distraído),
e só encontrar a paz
quando finalmente dormes
e desaparece do dia
em um clarão de explosão.


15/01/2010

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

NOITE COTIDIANA

NOITE COTIDIANA

A casa fez-se em silêncio.
Cada qual repousou tranquilamente em seu quarto,
fingindo usufruir de um bom sono,
de um sono restaurador.
A casa gemia, estalava, retinia.
As almas retiniam, gemiam, retorciam.
Os corpos se mexiam, ardiam, contorciam-se.
As esperanças dormiam.
A continuidade percorria tranquilamente
os espaços entre os quartos.
O dia de ontem já não existe no desesperador
imperialismo do dia de hoje.

A casa quedou-se em silêncio.
Em silêncio de mentira, um silêncio
rompível e corruptível, facilmente
dessacralizado.

As almas abriram as asas.
Os corpos abriram as celas.
As esperanças foram passear.

O dia de ontem ainda existe na vaga memória
que insiste em não se entregar ao ofuscante
badalar dos relógios digitais.

As teclas são esmagadas.
A poesia mata a prosa.
O calor mata o sossego.
Os dedos estalam, contorcem-se, mexem-se.

A poesia é a mesma.
A necessidade é a mesma.
Os leitores são poucos,
a importância é nula.

A poesia se instaura e instala-se.
Os corpos descansam, esperançosos,
as almas rodeiam as proximidades.

Pode-se não ser totalmente feliz.
Mas tenta-se.
Com fervor.


11/01/2011

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

NEM TENTE ENTENDER

NEM TENTE ENTENDER

Dentro da solidão, da emoção,
do calor da falta que tudo faz nas
minhas mãos, do surpreendente apego
do meu coração, da rítmica cadência

do meu bordão, é simples entender
o que me faz ficar aéreo, voando,
alheio ao borrão de luz e cores que
movimenta o clarão do dia que se encerra...

Gosto tanto que no fim já cansei
quero tanto que no fim tanto faz
desejo tanto que no fim desejo mais.

A grande loucura é a mudança de tudo,
de hoje amada para antes amando,
antes atenta, hoje nem tenta!

Mas vê lá, olha o que vou te dizer:
quebro o soneto para poder escrever
que o ciúmes que sinto é maluco, maluco,
te chamo, te sinto, te pinto outra, te imagino
solta, te quero minha.

Por quê?