- guia de um ordinário vernáculo -


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

EXPLICAÇÃO

EXPLICAÇÃO

se falo de amor
e rimo as cores do coração
com a angustia de toda paixão

ou se corro de Deus
só para suplicar de novo
o seu perdão

ou se acho besta a disposição
das pedras e os rostos deles
quando me dizem: ‘esqueça’

ou se homens morrem nas ruas
explodindo com câmeras nas mãos
e todos os dias todos discutem e curtem
a dança da posição e o contorcionismo da oposição

ou se me cansa falar do outro como se fala por aí
todos muito cheios de si a proclamar que a poesia
muda o mundo mas eu mesmo nunca li

ou se me calo diante dos meus irmãos que morrem
por calçarem os saltos que trazem dentro de si

ou se às vezes eu acho que o mundo foi feito pra mim
e me inclino sem saber diante de pessoas que escolho
para me superarem e pisarem com força bem assim

ou se eu volto de novo ao amor
e invento um velho novo amor
e se tudo que eu falo é sobre ele

é porque eu só sei de mim
e sentir  os outros ainda
é muito esforço:

tentativas que não

cabem aqui.

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