- guia de um ordinário vernáculo -


sexta-feira, 7 de junho de 2013

AMOR NÃO É BRINCADEIRA




AMOR NÃO É BRINCADEIRA

seus três sinais no pescoço
são para mim constelação e guia:
minhas próprias três-marias

luz rara e caminho
luz de prata na estrada
funda e instável:
meu mar

bússola astrolábio
beijo seu pescoço
como náufrago
agarro seu pedaço
e bóio salvo:

seus sinais minha ópera
que sem o espaço entre
um e outro é mito
inverdade: eu não existo

ausência que se aproxima
jangada de minha dor
nuvens que se adensam
e me exilam das águas

arranha e dói
ilha solitária

fico sem
estrelas mapas guias
e o céu é escuridão

enquanto isso
escrevo com
meu corpo:

com você longe
em que mar
me vou
navegar?

07/06/2013

terça-feira, 28 de maio de 2013

FLORA ou A DEUSA QUE SE CANSOU E SAMBOU



FLORA ou A DEUSA QUE SE CANSOU E SAMBOU


para flora vaquer

pelo seu aniversário.


flora durante muito tempo
sentou-se no seu trono de ninfa
no panteão dos romanos
e entre ambrosias e poesias
beijava uma flor e fazia amor

flora sentava estava
e cansada ficou
de ser admirada de longe
quando se cheirava uma flor
e enjoada do panteão romano
disse ciao aos alpes e os rios
e nas praias da bahia veio
renascer nua em calor

flora nova vênus sendo
pura natureza e ciente
dos seus peitos fartos
corpo de curvas quentes
rebolou no pelô o seu
canto de deusa

e na roda de samba
que se criou foi que
flora – a deusa, a flor,
a cor do desejo, o amor –

decidiu que sua nova missão
diva ninfa louca e deusa
era distribuir amar entre
loucos e loucas
que ainda de longe ouviam
seu encantar

flora sentava estava
flora dançando ficou

e a marca de sua seiva
é uma flor de desejo que deixa
em cada fiel que provou.

domingo, 26 de maio de 2013

DA VIDA QUE ANDA EM 32 DIREÇÕES ou NOTHING BUT BLUE SKIES



DA VIDA QUE ANDA EM 32 DIREÇÕES ou NOTHING BUT BLUE SKIES

encontrei um pedaço de infância
entre meus passos esquecidos:
quando fiquei assim?
desde quando não sou
mais menino?

entre gritos cacos e laços
ouço assustado a loucura
que grita pela janela:
é o meu futuro?
é a minha cela?

na rua no frio vento
encontro meu espírito:
infância vida
o que é isso?

entre livros brigas e circos
me importa mesmo
é não estar omisso.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

GUIA DE CABOTAGEM



GUIA DE CABOTAGEM

a falta de hoje
impede o naufrágio

navegar em águas calmas
é que exige experiência

marinheiro velho não
sabe pisar em falso

é como dizem?
quem dorme
não vê a
onça da onda:

essa fera.

24/04/2013

segunda-feira, 25 de março de 2013

PORQUE É PRECISO CHAMÁ-LA PELO NOME

PORQUE É PRECISO CHAMÁ-LA PELO NOME

Puta: você é uma puta.
você fala que me quer
e depois faz as malas
levanta as saias e sai
dando por aí.

Puta: você é uma puta.
me chama de gostoso,
me faz carinho
me beija
me lambe
e depois me chama
de outro nome.

Puta: você
enche minha casa
com seus gritos
e me faz acreditar
que sou querido.

Puta: é preciso
te chamar pelo nome.
te xingar com vontade
sabendo que você não é
só minha
mas te querendo
enjaulada em minhas
pernas.

Você é uma puta
a quem chamam
de poesia,

mas te pago
todo dia
pra fingir que
sou seu

e que só existe
eu
na sua imensa
orgia.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O CANTO DO GATO


O CANTO DO GATO
ou
prólogo de uma ópera nunca escrita.

quando chove é que ouço
o seu canto de gato:
felino arriscado, foram os
seus olhos que me deixaram
atado,
felino errado,
seus olhos de gato que
me lambem em elegância,
seu olhar marcado
sua íris diagonal
olhar rei que determina morte
que virá:
virá certamente por tuas
garras afiadas que arranham
meu solo até jorrar coração
e é meu rio que você enterra
dentro das patas de sua mão.
é a surdez da minha pena
que me faz vítima brinquedo:
felino pecado, me matas
por nada:
no erro, sou teu aliado,
nosso elo selado.

26/02/2013

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

ROTATIVA REPETIÇÃO



ROTATIVA REPETIÇÃO

posso afirmar com convicção
sem dúvidas
aliás
posso afirmar peremptoriamente:
sou louco de raiz.
de berço. de barriga. de cadeias de gentes.
de loucos que foram loucos antes de mim.
percorri meus rios que já desaguaram
e vi o pai do pai do pai da mãe do pai e mãe
daqueles que um dia resolveram
me deixar ver a luz:

a loucura me acompanha há séculos:
quiçá milênios.

meus cantos operescos, minhas danças africanas,
minha longa discussão feita em alemão com a palma
da minha mão, meus risos altos no meio da rua
só para assustar o ladrão:

tudo isso existiu, tudo já me precedeu,
nada é novo, tudo é louco,
nada precede a contramão:

cantar músicas de amanhã, ser eu só quando
ninguém está olhando, acordar no meio da noite
só  para falar em voz alta e conferir
se minha voz não fugiu
e eu continuo sendo o mesmo:
um outro já fez isso, te digo,
eu já fui vivo.

na roda polida da vida
o hoje é eterna repetição.
inclusive o sangue:

há muitos anos que nasci
em louca explosão.