- guia de um ordinário vernáculo -


quarta-feira, 24 de abril de 2013

GUIA DE CABOTAGEM



GUIA DE CABOTAGEM

a falta de hoje
impede o naufrágio

navegar em águas calmas
é que exige experiência

marinheiro velho não
sabe pisar em falso

é como dizem?
quem dorme
não vê a
onça da onda:

essa fera.

24/04/2013

segunda-feira, 25 de março de 2013

PORQUE É PRECISO CHAMÁ-LA PELO NOME

PORQUE É PRECISO CHAMÁ-LA PELO NOME

Puta: você é uma puta.
você fala que me quer
e depois faz as malas
levanta as saias e sai
dando por aí.

Puta: você é uma puta.
me chama de gostoso,
me faz carinho
me beija
me lambe
e depois me chama
de outro nome.

Puta: você
enche minha casa
com seus gritos
e me faz acreditar
que sou querido.

Puta: é preciso
te chamar pelo nome.
te xingar com vontade
sabendo que você não é
só minha
mas te querendo
enjaulada em minhas
pernas.

Você é uma puta
a quem chamam
de poesia,

mas te pago
todo dia
pra fingir que
sou seu

e que só existe
eu
na sua imensa
orgia.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O CANTO DO GATO


O CANTO DO GATO
ou
prólogo de uma ópera nunca escrita.

quando chove é que ouço
o seu canto de gato:
felino arriscado, foram os
seus olhos que me deixaram
atado,
felino errado,
seus olhos de gato que
me lambem em elegância,
seu olhar marcado
sua íris diagonal
olhar rei que determina morte
que virá:
virá certamente por tuas
garras afiadas que arranham
meu solo até jorrar coração
e é meu rio que você enterra
dentro das patas de sua mão.
é a surdez da minha pena
que me faz vítima brinquedo:
felino pecado, me matas
por nada:
no erro, sou teu aliado,
nosso elo selado.

26/02/2013

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

ROTATIVA REPETIÇÃO



ROTATIVA REPETIÇÃO

posso afirmar com convicção
sem dúvidas
aliás
posso afirmar peremptoriamente:
sou louco de raiz.
de berço. de barriga. de cadeias de gentes.
de loucos que foram loucos antes de mim.
percorri meus rios que já desaguaram
e vi o pai do pai do pai da mãe do pai e mãe
daqueles que um dia resolveram
me deixar ver a luz:

a loucura me acompanha há séculos:
quiçá milênios.

meus cantos operescos, minhas danças africanas,
minha longa discussão feita em alemão com a palma
da minha mão, meus risos altos no meio da rua
só para assustar o ladrão:

tudo isso existiu, tudo já me precedeu,
nada é novo, tudo é louco,
nada precede a contramão:

cantar músicas de amanhã, ser eu só quando
ninguém está olhando, acordar no meio da noite
só  para falar em voz alta e conferir
se minha voz não fugiu
e eu continuo sendo o mesmo:
um outro já fez isso, te digo,
eu já fui vivo.

na roda polida da vida
o hoje é eterna repetição.
inclusive o sangue:

há muitos anos que nasci
em louca explosão.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

DO DESEJO QUE É MEU



DO DESEJO QUE É MEU
 
o medo é um cavaleiro
me coloca sobre sua garupa
me mostra seus domínios e me mata
conta vantagens: não muda o estilo
o medo é meu amigo.

o amor é uma puta
que se senta no meu colo e grita
me faz suar tremer chorar e me mata
o amor trai e finge mil estilos
o amor é meu amigo.

o desejo se esconde e se finge
de freira de puta e de cavaleiro
ele é perigoso e anda num
pântano luminoso que existe em mim
o desejo é o estilo e é meu claro inimigo:

o desejo sim
                               esse
                                               me quer
                                                                     vivo.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Lançamento de Inerência


Lançamento de "Inerência", meu livreto de poesias =)

Vocês, que acompanham meu blog e, não sei por qual inspiração divina, quiserem um exemplar, é só falar!
De algum lugar a gente precisa começar, não é?

Inerência
Matheus Marques
Preço: R$ 15,00.




quarta-feira, 31 de outubro de 2012

PASSAGEM NO LITORAL



PASSAGEM NO LITORAL

céu tingido
surdo farol dos poetas
no vento da Barra.

os loucos que correm cheirando a mar
os que correm querendo suar
o cristo penumbra, silhueta
contrastada: escuridão e a salvação
de sóis laranjas.

piso azul de divindades raras
na lua cheia quem já não quis
ver a sereia, a cantadeira?
iemanjá mareia.

brisa beijo nos corpos rebolantes
das calçadas e das areias.

invade o cheio com sotaque das
três vênus gordas que dominam
o caminho de antigos barulhos
pés e arquejos: ajayô.

fátima abençoa de sua casa
de vidro os que caminham
na oceânica avenida até os
rios da boemia, dos bares
e das festas que rodeiam
a diva noturna dos acarajés
e dos que sem paciência entornam
o vinho de jorge.

aqui correm rios de cheiro de
dois de fevereiro e das missas
dominicais

e a continência ao general
é feita enquanto a viagem
prossegue em paz.

salvador me desliza atravancada
e eu sonho com a beleza na calçada
vejo a vida e as gentes
voltando às suas casas.

na lírica luz da lua cheia
louca vontade da sereia
em teus caminhos de calor
meu amor
meu passeio
não tem fim.

sábado, 27 de outubro de 2012

EU SÓ QUERIA DAR UMA VOLTA POR AÍ

EU SÓ QUERIA DAR UMA VOLTA POR AÍ


quem vai se importar com o nada
que insiste em ser sentido
em olho louco, absurdo, canções cantadas
em ouvidos surdos, meu amor.

quem vai saber o que eu sinto
lá na frente, quando isso tudo estiver
vento e eu também: vento.

quem vai se lembrar dos choques
dos olhos do desejo das mãos
dos meus beijos e dos meus ciúmes
por cada coisa doida, por gente outra
hein, meu amor, quem vai lembrar?

quem lembrar do que eu ainda não fiz
mas que um dia eu vou fazer
e do que eu fiz e continuo fazendo
e tudo aquilo que ninguém sabe que eu fiz
nem saberá, hein, quem saberá?

quem vai se importar com o nada
que é sentido mas não é dito e
justamente por isso

 fica preso
                                   no limbo?