- guia de um ordinário vernáculo -


quarta-feira, 30 de março de 2011

HABLAR

HABLAR

sofrer em silêncio é coisa de santo
sofrer e calar e minguar sem nada falar?
coisa de doido! coisa de mártir
sofrer e não falar e não gritar

o quanto eu quero o quanto eu quero
os seus olhos
é incompreensível, coisa sem sentido
coisa do encardido:

pra pagar as lágrimas falsas
derramadas por falsos amores
o diabo colocou no meu peito
uma paixão de verdade
dessas que nos deixam morto.

pronto
falei
agora vê se entende,
tá bem?

segunda-feira, 28 de março de 2011

ECO DE UM POEMA

ECO DE UM POEMA

tenho escrito uns poemas
impublicáveis, queimáveis
extremas verdades que são
perigosas por conterem um nome.

eles contém seu nome e sua indiferença,
seu modernismo e o meu romantismo
(esse enorme simbolismo),
falta tudo, a carestia é grande,
escrevo tua rima
faço teu nome.

se feliz rio se sofro choro
se choro grito se grito oro
se feliz choro se infeliz choro
se triste rio e doido
crio.

(estando você tão perto
e não podendo eu nada fazer
senão olhar e sorrir)

já que estou perdendo
a serenidade e a sanidade
grito teu nome, faço tua rima.
ouvistes?
teu nome é segredo,
só disfarço e faço rima,
ouve o eco já que seu nome
é minha sina
tua rima
minha rima
minha
minha
ruína.

terça-feira, 22 de março de 2011

REVEILLON

REVEILLON

Chega!
cansei de enfiar bilhetinhos nas fendas
dos meus inúmeros muros das lamentações!
não vou mais me desesperar,
hoje eu resolvi mudar, meu ano novo começa hoje!

Chega!
o ano novo é amanhã, fiz dessa noite o meu
reveillon! não importa o tamanho da beleza:
não vou me prostituir, não vou ficar definhando,
sonhando esperando escrevendo por alguém
que nem olha os meus escritos!

Chega!
cansei de suspirar e confluir meus sentimentos
e não ser visto nem ouvido nem percebido!
hoje eu decidi gritar chega! e o meu chega!
é real, é a última vez que me arrasto nos corredores
lamentando te ver depois da curva.

Chega!
meu ano novo vai ser feliz, não importa
se ontem eu era homem velho e morria
de ciúmes por um beijo um olhar um abraço
que você dava! isso é pra quem não tem resoluções
novas de transformação, e isso eu hoje adquiri!

Chega!
você pode ficar aí sendo o que você é,
sem culpa de ser assim: uma pessoa desatenta.
como é que não percebeu meus olhares kamikazes e fuziladores?

Chega!
feliz ano novo, matheus! feliz ano novo, cambada!
eu resolvi mudar e não importa se só muda o dia
e as pessoas são as mesmas: a ilusão do radicalismo
me anima.

cansei de gente cega.
conviver com gente de alma estrábica me embrulha o estômago.

feliz ano novo!


22/03/2011

sexta-feira, 11 de março de 2011

MENSAGEM ATUAL DO ORÁCULO DE DELFOS

MENSAGEM ATUAL DO ORÁCULO DE DELFOS

Anda,
vem comigo escrever idílios
nos meus suplícios,
fazer graça, grasnar, o riso,
vem folhear o meu bestiário,
meu mostruário, meus monstros,
meus amores de ontem.

Anda,
olha e repara minha casca,
já está se rompendo
(efeito do tempo) mas ainda luto
para essas águas não apagarem
a cruz feita com minhas cinzas.

Anda,
conto três preces, canto,
brinco, dedilho, bêbado de sonhar,
ressaca e dor de olhar, a alegria
de escrever sobre mim,
dormir, quiçá acordar numa fuga
de hoje de manhã.

Anda,
apressa o passo, pega o dicionário
e o cavalo e tenta me entender:
é março, é cedo, foi carnaval e agora
é tempo de roxo, de recolher os cacos
e guardar tudo bem guardado em um velho sacrário.

Anda,
o oráculo canta, manda, te encanta:
provoca, acorda, convoca,
entenda, pressinta, se joga!,

aperta, num salto, nossas esporas,
compreende, de tudo,
a incerta vitória.


11/03/2011

quarta-feira, 2 de março de 2011

MINHA MULHER QUE PASSA

atenção, esse é um poema erótico. puritanos de plantão, poupem-se.

MINHA MULHER QUE PASSA

“Meu Deus, eu quero a mulher que passa”
Vinícius de Moraes

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como eu quero essa mulher, meu Deus,
essa mulher que não é nenhuma das que
comem e carcomem (e cospem) meu coração,
e por isso mesmo tem essa força de tufão,
provoca a vertigem de um furacão no jeito
que atravessa a rua, meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Meu Deus, eu quero essa mulher,
eu quero passar a mão onde só ela passa,
quero poder ser desrespeitosamente amoroso,
poder morder essa orelha e apertar suas bochechas
e arrancar essas madeixas e lamber...
ah... lamber com prazer você sabe o quê.

Meu Deus, eu quero ser devasso com essa mulher!
Essa mulher que passa e não deixa marcas, essa mulher
que é tão fácil nos meus pensamentos, uma gostosa
de família, decente e desconcertante!

Mulher que passa, me deixa ser seu deus que repara
nas suas coxas nos peitos na língua na roupa que não usas...

Mulher feita de um olhar!
Boa mulher feita de um olhar!

Como é bom ter você num átimo,
e te comer com os olhos sem que você repare,
e passear sozinho no sábado e descansar no domingo
sabendo que na segunda feira te verei no meu prostíbulo!


11/02/2011

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

ORAÇÃO FEITA COM OS OLHOS OU ODE À BELEZA ENLOUQUECEDORA OU MEU NOVO CREDO OU SÍMBOLO DAQUELA FORMOSURA OU ODE À BELEZA ENSANDECIDA

ORAÇÃO FEITA COM OS OLHOS OU ODE À BELEZA ENLOUQUECEDORA OU MEU NOVO CREDO OU SÍMBOLO DAQUELA FORMOSURA OU ODE À BELEZA ENSANDECIDA

Beleza nata, fixada nas pálpebras,
criada em mim depois de existir,
feita da mesma substância do desejo;
por você muita coisas foram feitas
e por mim, para minha perdição,
não se digna a baixar os olhos para
meus acenos envergonhados.

Beleza gravada na retina: fixa.
Beleza ditadora, não chega à causar dores,
mas cansa olhares, arrasta pelas correntes
o seu fiel devoto silencioso.

Beleza assustadora: ofuscante.
Um imã tão poderoso que não faz
meus olhares descuidados e imaginativos
se configurarem em cobiça e em negação
do sexto
mandamento:
ação tão natural que é quase um louvor
ao Criador
de tal
Criatura despretensiosa (?).

Creio que a minha loucura está próxima
(nunca vivi tão próximo de uma loucura causada pela beleza; controlo-me todos os dias, suspiro todas as horas, olho todos os minutos).
Confesso que nada espero
(e isso assumo sem receios: há muito cansei dos doutos doutores especialistas na hermenêutica de matheus).
Espero minha libertação
(depois de longos olhares que percorrem as linhas de sua beleza [minha loucura]).

Creio, Confesso, Espero.
Formulo, Dogmatizo, Não Realizo.
Rezo, Não Desprezo, Embelezo seu Eu.

Cego
nesses desassossegos
sou teu.

Amém?

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

ACONTECIMENTO POSTERIOR FUTURO

ACONTECIMENTO POSTERIOR FUTURO

Ela dizia vem
ele vinha.
Ela dizia vai
ele ia.
Ela dizia fica
ele ria.

Um dia
ela soltou a coleira
e disse volta,

e ele voltou
deu dois tapas
na cara
cuspiu
e saiu andando pela rua
(meio perdido, mas orgulhoso)
livre pela primeira vez na vida.


10/02/2010

sábado, 15 de janeiro de 2011

CONFORMAÇÃO

CONFORMAÇÃO

Eu me conformei
em virar vigia,
me consumir noite e dia
imaginando com aflição
onde andas onde cantas
onde será que encantas
outros bobos por aí...

Eu me conformei
em virar vigia,
em não sofrer durante o dia
e me desesperar durante a noite,
fazer vigílias e acender a poesia
que queima aquilo que alguns chamam
de...
coração.

Eu me conformei
em virar teu vigia,
em ser discreto
(mas não distraído),
e só encontrar a paz
quando finalmente dormes
e desaparece do dia
em um clarão de explosão.


15/01/2010

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

NOITE COTIDIANA

NOITE COTIDIANA

A casa fez-se em silêncio.
Cada qual repousou tranquilamente em seu quarto,
fingindo usufruir de um bom sono,
de um sono restaurador.
A casa gemia, estalava, retinia.
As almas retiniam, gemiam, retorciam.
Os corpos se mexiam, ardiam, contorciam-se.
As esperanças dormiam.
A continuidade percorria tranquilamente
os espaços entre os quartos.
O dia de ontem já não existe no desesperador
imperialismo do dia de hoje.

A casa quedou-se em silêncio.
Em silêncio de mentira, um silêncio
rompível e corruptível, facilmente
dessacralizado.

As almas abriram as asas.
Os corpos abriram as celas.
As esperanças foram passear.

O dia de ontem ainda existe na vaga memória
que insiste em não se entregar ao ofuscante
badalar dos relógios digitais.

As teclas são esmagadas.
A poesia mata a prosa.
O calor mata o sossego.
Os dedos estalam, contorcem-se, mexem-se.

A poesia é a mesma.
A necessidade é a mesma.
Os leitores são poucos,
a importância é nula.

A poesia se instaura e instala-se.
Os corpos descansam, esperançosos,
as almas rodeiam as proximidades.

Pode-se não ser totalmente feliz.
Mas tenta-se.
Com fervor.


11/01/2011

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

NEM TENTE ENTENDER

NEM TENTE ENTENDER

Dentro da solidão, da emoção,
do calor da falta que tudo faz nas
minhas mãos, do surpreendente apego
do meu coração, da rítmica cadência

do meu bordão, é simples entender
o que me faz ficar aéreo, voando,
alheio ao borrão de luz e cores que
movimenta o clarão do dia que se encerra...

Gosto tanto que no fim já cansei
quero tanto que no fim tanto faz
desejo tanto que no fim desejo mais.

A grande loucura é a mudança de tudo,
de hoje amada para antes amando,
antes atenta, hoje nem tenta!

Mas vê lá, olha o que vou te dizer:
quebro o soneto para poder escrever
que o ciúmes que sinto é maluco, maluco,
te chamo, te sinto, te pinto outra, te imagino
solta, te quero minha.

Por quê?