- guia de um ordinário vernáculo -


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O CANTO DO GATO


O CANTO DO GATO
ou
prólogo de uma ópera nunca escrita.

quando chove é que ouço
o seu canto de gato:
felino arriscado, foram os
seus olhos que me deixaram
atado,
felino errado,
seus olhos de gato que
me lambem em elegância,
seu olhar marcado
sua íris diagonal
olhar rei que determina morte
que virá:
virá certamente por tuas
garras afiadas que arranham
meu solo até jorrar coração
e é meu rio que você enterra
dentro das patas de sua mão.
é a surdez da minha pena
que me faz vítima brinquedo:
felino pecado, me matas
por nada:
no erro, sou teu aliado,
nosso elo selado.

26/02/2013

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

ROTATIVA REPETIÇÃO



ROTATIVA REPETIÇÃO

posso afirmar com convicção
sem dúvidas
aliás
posso afirmar peremptoriamente:
sou louco de raiz.
de berço. de barriga. de cadeias de gentes.
de loucos que foram loucos antes de mim.
percorri meus rios que já desaguaram
e vi o pai do pai do pai da mãe do pai e mãe
daqueles que um dia resolveram
me deixar ver a luz:

a loucura me acompanha há séculos:
quiçá milênios.

meus cantos operescos, minhas danças africanas,
minha longa discussão feita em alemão com a palma
da minha mão, meus risos altos no meio da rua
só para assustar o ladrão:

tudo isso existiu, tudo já me precedeu,
nada é novo, tudo é louco,
nada precede a contramão:

cantar músicas de amanhã, ser eu só quando
ninguém está olhando, acordar no meio da noite
só  para falar em voz alta e conferir
se minha voz não fugiu
e eu continuo sendo o mesmo:
um outro já fez isso, te digo,
eu já fui vivo.

na roda polida da vida
o hoje é eterna repetição.
inclusive o sangue:

há muitos anos que nasci
em louca explosão.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

DO DESEJO QUE É MEU



DO DESEJO QUE É MEU
 
o medo é um cavaleiro
me coloca sobre sua garupa
me mostra seus domínios e me mata
conta vantagens: não muda o estilo
o medo é meu amigo.

o amor é uma puta
que se senta no meu colo e grita
me faz suar tremer chorar e me mata
o amor trai e finge mil estilos
o amor é meu amigo.

o desejo se esconde e se finge
de freira de puta e de cavaleiro
ele é perigoso e anda num
pântano luminoso que existe em mim
o desejo é o estilo e é meu claro inimigo:

o desejo sim
                               esse
                                               me quer
                                                                     vivo.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Lançamento de Inerência


Lançamento de "Inerência", meu livreto de poesias =)

Vocês, que acompanham meu blog e, não sei por qual inspiração divina, quiserem um exemplar, é só falar!
De algum lugar a gente precisa começar, não é?

Inerência
Matheus Marques
Preço: R$ 15,00.




quarta-feira, 31 de outubro de 2012

PASSAGEM NO LITORAL



PASSAGEM NO LITORAL

céu tingido
surdo farol dos poetas
no vento da Barra.

os loucos que correm cheirando a mar
os que correm querendo suar
o cristo penumbra, silhueta
contrastada: escuridão e a salvação
de sóis laranjas.

piso azul de divindades raras
na lua cheia quem já não quis
ver a sereia, a cantadeira?
iemanjá mareia.

brisa beijo nos corpos rebolantes
das calçadas e das areias.

invade o cheio com sotaque das
três vênus gordas que dominam
o caminho de antigos barulhos
pés e arquejos: ajayô.

fátima abençoa de sua casa
de vidro os que caminham
na oceânica avenida até os
rios da boemia, dos bares
e das festas que rodeiam
a diva noturna dos acarajés
e dos que sem paciência entornam
o vinho de jorge.

aqui correm rios de cheiro de
dois de fevereiro e das missas
dominicais

e a continência ao general
é feita enquanto a viagem
prossegue em paz.

salvador me desliza atravancada
e eu sonho com a beleza na calçada
vejo a vida e as gentes
voltando às suas casas.

na lírica luz da lua cheia
louca vontade da sereia
em teus caminhos de calor
meu amor
meu passeio
não tem fim.

sábado, 27 de outubro de 2012

EU SÓ QUERIA DAR UMA VOLTA POR AÍ

EU SÓ QUERIA DAR UMA VOLTA POR AÍ


quem vai se importar com o nada
que insiste em ser sentido
em olho louco, absurdo, canções cantadas
em ouvidos surdos, meu amor.

quem vai saber o que eu sinto
lá na frente, quando isso tudo estiver
vento e eu também: vento.

quem vai se lembrar dos choques
dos olhos do desejo das mãos
dos meus beijos e dos meus ciúmes
por cada coisa doida, por gente outra
hein, meu amor, quem vai lembrar?

quem lembrar do que eu ainda não fiz
mas que um dia eu vou fazer
e do que eu fiz e continuo fazendo
e tudo aquilo que ninguém sabe que eu fiz
nem saberá, hein, quem saberá?

quem vai se importar com o nada
que é sentido mas não é dito e
justamente por isso

 fica preso
                                   no limbo?

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

CANÇÃO DO OUTRO


CANÇÃO DO OUTRO

minha angustia é só
a capa empoeirada da solidão.

lamento o passado de silêncio
e ansiava pelas mãos dadas.

cavalguei reinos e fui herói
e sem ninguém saber chorei
entre lençóis, mas venci e inimigos
frios caíram aos pés de mim.

hoje amo e tenho
mas medo dói e me calo
tranco minhas portas comportas
portais

penduro minhas tristezas em varais
e ninguém as vê
(só aqueles que forem ursos iguais
a mim):

leões.
mas nem tudo é silêncio
e há os gritos dos raios
de festas e fantasia

enquanto o meu eu
calado e fechado
dança em labaredas
de lembranças

e aguarda o ombro
o telefonema
o dizer a resposta
a dança:

essa burra
burra
burra esperança.


18/07/2012