- guia de um ordinário vernáculo -


sábado, 31 de dezembro de 2011

FINAL ENIGMA

FINAL ENIGMA

então você vê?
sou um alguém confinado
ao mistério de almas outras
uma esfinge em pele de menino
- dizes agora: homem –
já nasci devorando quem
não conseguiu decifrar-me

então não vê
que mesmo sem querer
o que eu gosto em você
é a facilidade com que acaba
com meus mistérios

faz minha rima parecer boba
a poesia não preenche
não basta e não muda

porque me amas no claro
já não me escondo no escuro
não preciso ser cego
tenho o quê?
tenho alguém.

eu quero olhar.

então me parece
que
vês?

o cego sou eu?
ou quem não enxerga é você?

e a dificuldade de largar
os ciúmes do passado
e abrir os olhos para o
futuro e para o presente
mesmo!
por que não?

todos me entendem
ou eu acho que todos
são você?
e você é o meu ‘todos’
entende
vê?

transformei-te
em alguém que me decifra
e meu difícil enigma
não foi para você
- nem de longe –
uma quebra de paradigma

e é por isso
meu amor
que
sua presença
me inspira.

31/12/2011

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

INÉDITO

INÉDITO

é mágica
sua química
de mudar a composição
de minha rima

é mágica
minha nova sina
de te ter no centro
das minhas linhas

é rápida
a poesia
já que o tempo
que destinava
às despedidas

hoje é
medida que perco
e encontro
quando beijo
o amor
que modificou
minha vida


15/12/2011

sábado, 22 de outubro de 2011

URGÊNCIA

URGÊNCIA (II)

é preciso lembrar
que necessito
te envolver
que preciso
te enlaçar
que é urgente
te abraçar

é preciso dizer
que eu quero
me afogar
nesse fogo novo
que purifica
o sentido do amar

é preciso confessar
que quero me entregar
mesmo com medo
de outra vez
de outra vez
de outra vez
me machucar

mas de uma coisa
tenha certeza:

passou essa
inútil estranheza
e já não tenho receio
de encontrar
por acaso
a felicidade

porque
você veio há pouco

mas já está comigo
há muito.

22/10/2011

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

I

I

se mesmo falando que
estava fechado por inteiro

e se mesmo no meio
dos dias loucos que correm

eu de novo quero ser
o derradeiro

e se de repente eu me vejo assim
com a poesia na ponta do dedo

percebo que ainda ter tempo
para pensar e lembrar e sorrir

é sinal
que
felizmente

(o coração
adora contrariar a mente)

eu não me perdi
de mim.

13/10/2011

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

DE NOITE

DE NOITE

aqui perto
existe um
saxofonista
que transforma
minhas tardes
minhas noites
minha vida
e traduz
minhas loucuras
em bonita melodia

ontem ele
estava tocando
um jazz lento e triste

hoje ele
percorre notas
alegres e contagiantes



eu

fechei os olhos
e suspirei bem fundo
e
o jazz me acompanhou
profundo

- desconfio que ele também consiga ouvir minha solidão.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

AUTORRETRATO AOS 18 ANOS

sim sofro ao ouvir o silêncio
sou volúvel e volátil mas detesto o ruído o barulho
por não encontrar ninguém essa incrível incapacidade
que possa me decantar de não calar

corro Daquele Outro Amor vivo procurando
mas não sei viver fora a forma de libertinar
do Seu Olhar a santidade escancarada nas veias

sim sim
existem os gritos há a absurda falta
as risadas e os meus amigos que tudo
mas também me faz
o claustro fechado e me deixa assim
escondido pelo sorriso cansado efusivo
melancólico
triste

sim há a busca incessante
estou incompleto por algo invisível
nasci incompleto por algo firme
sou por-acabar algo que eu possa me agarrar

sim
quem me forma
ainda não chegou
e meu eterno vício
é o de todas as noites
perguntar:
e você?

será que vai chegar?

não
não compreendo o meu lugar
mas algo me diz
profundo
que minha vida será
amar
amar
amar

terça-feira, 6 de setembro de 2011

GÊNESIS

GÊNESIS

no princípio
era eu
vagando em cima
das águas

depois veio você
tempestade solar
e mudou o mundo
com teu olhar

no meio
éramos nós
fogo e água
fincados na terra
sedentos por ar
para enfim

no fim
ser só eu
vagando com medo
de naufragar

terça-feira, 23 de agosto de 2011

EMBARAÇADO

EMBARAÇADO

existem épocas que eu fico assim
acho que me perdi de mim
e choro o estorvo do meu leite derramado
e fico procurando algo que possa me distrair

existem épocas que eu fico assim
acho que a poesia desistiu de mim
e grito minhas perguntas a qualquer estranho
que aparece e me oferece um sorriso:
você viu minha alma por aí?

existem épocas que não me parecem certas
quando foi mesmo que eu me perdi?
quando foi que me transformei em cidadão de Atenas
e fiquei sem admirar suas melenas e me transformei
num Narciso que perdeu o gosto e a qualidade?

existem épocas que contesto meu nascimento
digo digo que tudo é puro tormento
enceno um drama e dou vazão à um invisível sofrimento
crio mil novos sentimentos e acabo afirmando vencimento:
quando nasci o céu estava de férias
ou realmente o meu anjo safado se esqueceu de mim?

existem épocas que eu viro uma Geni
e acho que tá todo mundo contra mim
suspiro vítima corro algoz mudo no ato
fico falho (mas não estático) e não acho
um bom conselho: viro de lado e encontro
meu desatino:

a poesia fugiu
e o mundo parece tão estranho
sem samba e sem dança
por que a tatuagem que fiz
de tanto amar
está cheia de mancha

nos bastidores da minha vida
existem dias que eu me lembro
com exatidão de quando você
me disse não

e compreendo que foi então
que minha poesia virou uma vitrine
construída na imaginação

podemos acabar não sendo
amantes futuros
e eu posso continuar
sendo inseguro

mas eu te juro!
acabou de vez o meu luto

agora e para sempre
meu bem
o que se diz
é
o
que
se
sente.


(poema vencedor da categoria sênior da XX Festa Literária do Gregor Mendel - 2011)

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

POEMA DE TARDE ALGUMA

POEMA DE TARDE ALGUMA

escrevo olhando
para o vento do entardecer
meu anoitecer se liberta nas
asas de uma canção
as entranhas do meu coração
se contorcem feito pássaros
recentemente libertos
e por isso a poesia
se perde entre os meandros
de nenhum rio que me torna
não-árido
não-seco
úmido.

escrevo ouvindo
o cheiro do pão de algum lugar
e aguardando o sacolejar de
uma voz nas voltas do esvoaçante
presente tão ausente do aguardar
e por isso não há como
descodificar a presente codificação
essa gloriosa comunicação entre dois mundos:
o meu de lá
o meu de cá.

no fim
eu sei o que quero dizer
e sei do que quero me livrar
mas fico até com medo de estar sendo dramático
tenho uma familiar tendência ao teatro que não vem de agora
(se bem me lembro o sangue dos salamaleques ensaiados ou não é herança dominante dos meus sobrenomes)

não há nada
para lamentar
justamente porque nada há.

escrevo olhando para
o morrer fingido do sol
e ouço o lamento sentido
de alguém:

se a ideia da poesia
é me esvaziar

então por que
eu só fico mais cheio
de nada?

quarta-feira, 6 de julho de 2011

DE NOVO A CARA PÁLIDA

DE NOVO A CARA PÁLIDA

o não escrito
não gera grito.

o não sentido
não atrai olhares.

o silêncio imposto
me faz ser grato.

o que não se fala
as vezes se percebe.

os mesmos lugares
me induzem ao erro.

as mesmas pessoas
me conduzem ao acerto.

o tempo passado
muda a espera.

o presente poema
me reinaugura.

o novo vazio
é o que me preenche:

de novo
o que se diz
é o que se sente.