- guia de um ordinário vernáculo -


sábado, 27 de outubro de 2012

EU SÓ QUERIA DAR UMA VOLTA POR AÍ

EU SÓ QUERIA DAR UMA VOLTA POR AÍ


quem vai se importar com o nada
que insiste em ser sentido
em olho louco, absurdo, canções cantadas
em ouvidos surdos, meu amor.

quem vai saber o que eu sinto
lá na frente, quando isso tudo estiver
vento e eu também: vento.

quem vai se lembrar dos choques
dos olhos do desejo das mãos
dos meus beijos e dos meus ciúmes
por cada coisa doida, por gente outra
hein, meu amor, quem vai lembrar?

quem lembrar do que eu ainda não fiz
mas que um dia eu vou fazer
e do que eu fiz e continuo fazendo
e tudo aquilo que ninguém sabe que eu fiz
nem saberá, hein, quem saberá?

quem vai se importar com o nada
que é sentido mas não é dito e
justamente por isso

 fica preso
                                   no limbo?

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

CANÇÃO DO OUTRO


CANÇÃO DO OUTRO

minha angustia é só
a capa empoeirada da solidão.

lamento o passado de silêncio
e ansiava pelas mãos dadas.

cavalguei reinos e fui herói
e sem ninguém saber chorei
entre lençóis, mas venci e inimigos
frios caíram aos pés de mim.

hoje amo e tenho
mas medo dói e me calo
tranco minhas portas comportas
portais

penduro minhas tristezas em varais
e ninguém as vê
(só aqueles que forem ursos iguais
a mim):

leões.
mas nem tudo é silêncio
e há os gritos dos raios
de festas e fantasia

enquanto o meu eu
calado e fechado
dança em labaredas
de lembranças

e aguarda o ombro
o telefonema
o dizer a resposta
a dança:

essa burra
burra
burra esperança.


18/07/2012

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

DANÇA



DANÇA

quando viver parece fácil
e a irritação que me domina
grita rimas e me alucina

quando o amanhã me
enerva o poema não me
leva e nem me faz voar

quando a poesia se faz
diva musa deusa ferida
decadência escondida

quando eu luto e luto
e todo sujo de letras
me percebo vitorioso

esse jogo
me cansa
e caio na
cama

domingo, 19 de agosto de 2012

MYSTERIUM FIDEI


MYSTERIUM FIDEI

mundos inexplorados
ventos e risos inoculados:
existe a loucura em mim.

existe a tentativa do viver
longe e diferente
e tentar por teimoso
lutar contra minha própria mente
fazer verso rima escrever na folha
minha falsa força
minha força crente.

e tudo
tudo que dentro de mim
me diz
“nem tente ser diferente”
por que já ele sabia que eu
haveria de querer mudar
e sabendo disso me pregou
divina peça
me fazendo do reverso avesso
para que lutando contra mim
fosse desaguar onde podia
para conhecer-me
amar-me a mim
desfazer-me
onde eu deveria
onde ele queria,

que ludibriar Deus
não é tarefa
do dia a dia.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A QUEM INTERESSAR POSSA


A QUEM INTERESSAR POSSA

se te interessa tanto, eu busco ser feliz
e não aceito ninguém me dizendo que isso não condiz
e não vou sorrir ao ouvir sua síndrome de juiz:
minha vida não é a sua, não te cabe me definir.

a minha existência não vai ser determinada por
seus cálculos errados e ultrapassados
e a sua preocupação pode até ser legítima,
mas é agressiva: quem te deu o direito
de esmagar a minha lida?

meus braços estão aqui, meu coração está aqui.
não vou assumir invalidez, minha alma balança mas é firme.
talvez você ache que uma divina revelação te deu razão:
ledo engano, com Ele também já discuti e não achei
reclamações.

não use seu chicote, não te mato nem te roubo,
só você pode se acabar. não entre na minha cama:
nela só eu posso deitar. não me culpe nem se culpe,
viva seu apogeu, viva seus próprios medos
que com os meus eu sei lutar.

pode me amar e me abraçar, mas não tente
me sufocar: por mim eu mordo, morro, mato,
viro zorro, sou cafona e até político.

não vou viver desiludido.


09/08/2012

domingo, 29 de julho de 2012

RESIGNAÇÃO


RESIGNAÇÃO

reparei agora
que vamos
todos morrer

e que mais dia
menos dia
irão todos
esquecer

que hoje eu
brinquei de correr
atrás de você

e nossos risos
- ninguém viu.

não há mais porque sofrer.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

CLEPSIDRA


CLEPSIDRA

talvez seja a estabilidade
talvez seja a falta de drama
talvez seja o calor e o frio
e os ônibus, o medo e os ritos
talvez seja esse talvez
que coloquei na cabeça:

‘talvez eu possa
um dia’.

talvez eu seja mesmo bobo
é certo que eu sou mesmo tolo
mas é que eu acho que minha
poesia é pra depois

e que o agora, quando não
se enche de poema,
é perdoável.

o erro é talvez achar
que o meu agora
um dia irá embora.

não, meu agora fica
e preciso entender 
que não é só ponto 
de partida.

13/07/2012