Rezemos pelos que negam: seu silêncio covarde é a pedra rolada de um túmulo vazio. Ouço murmúrios de peste, fome e morte. A guerra se apresenta clara nas bocas abertas dos ignorantes. Legiões, falam as bocas escorrendo ódio: acredito na morte! Digo morte! como se dissesse lucro. Os meandros do pensamento enferrujam os gestos de minhas mãos. Prefiro, dizem eles, ignorar.
Rezemos pelos que negam: o constante grito é pedra rolada de um silêncio covarde. Sustentam-se de mentiras porque reconhecer o caminho dos fatos é impossível. Algumas possibilidades se perderam quando renunciamos à busca, dizem. Só ousamos falar em balbucios indignos. No chão, traços de pensamentos mortos. Quem aqui reina é o ódio.
Rezemos pelos que negam, embora seus gritos covardes me espantem a capacidade de compreender. Busco as origens da minha preocupação, vejo vidas de professores colocando os instrumentos em minhas mãos: ouso pensar. Os livros são a busca pelos meandros. O passado palpita em minhas esquinas, a história se repete, é nossa sina. Ânsia. Busco a luta, não há! Ouço murmúrios de peste, fome e morte. Mas a mentira é a verdade, a verdade é uma só: é a ideia de criar realidades com nenhum olhar.
Rezemos pelos que negam, mas não digo bem-aventurança ou qualquer desejo de vingança. Rezar como lamentação. Como quem diz: rezei por você, mas ouvi murmúrios de peste e morte. Pensei, início, em um novo homem, nascido da experiência da dor. A palavra família, futuro, futuros! em uma casa comum. A peste não é a panaceia possível para os escravos que somos. Há raios que silenciam esperanças: estamos atravessados pelos horrores da realidade, um faixa verdeamarela cavando covas sobre nossos costados. Tudo está bem.
Rezemos pelos que negam, porque seus gritos de omissão escondem ódios antigos. É só reparar.
quarta-feira, 22 de abril de 2020
quarta-feira, 4 de setembro de 2019
ESPANTOS
ESPANTOS
como explicar, amor,
o que é pela primeira vez
amar?
sem o peso do gozo
mas a venturosa corrida pelo
ouro
seus braços criando mundos
nas delícias terrenas do limite
do corpo
e sentir o novo
nas passadas do novo
o velho sentir
sentir toda a água do mundo
dentro dos ventos que tenho
nos olhos
voar nas costas de um anjo
que beija com a
pele
alcançar qualquer coisa que
tenhamos debaixo dos
ossos
sentir o gosto
quando parecia esgotado
o tempo
amar no plácido arranhão
de todo momento de
poema
vivendo a pureza
da impossibilidade de poesia
porque o lirismo já é rima
e qualquer palavra
é inútil além do corpo
criado na nossa união
e não vivemos senão
pela calma inútil da espera
de sermos para sempre
sem nunca encontrar
o caminho ausente
de saber o que é
amar mais que amar.
segunda-feira, 29 de julho de 2019
CHUVA
CHUVA
toda chuva que cai
repete o dia em que
conheci a solidão
pela primeira vez
naquela tarde
não chovia
mas trovejava
dentro de mim
toda chuva que cai
repete o dia em que
conheci a solidão
pela primeira vez
naquela tarde
não chovia
mas trovejava
dentro de mim
terça-feira, 30 de abril de 2019
CÂNTICO DOS NOVOS CÂNTICOS
CÂNTICO DOS NOVOS CÂNTICOS
meu antídoto
beberagem amaviosa
quando escorre sangue
nas minhas pernas falhas
o mar que brinca de tocar o céu
quando os corpos antecedem os olhos
e palavras não alcançam as mãos
seu rosto,
minha educação: o riso preso
no ruivo do beijo
longínquas alturas dos teus eixos
os fragmentos dos cristais
na ponta dos seus dedos
lições aprendidas então
na ressaca dos desejos
meu areal de ouro
mergulho da aliança do calor
palavra escondida, palavra evitada
palavra de susto:
amor,
meu antídoto
do medo.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2018
O VÍCIO E O CELULAR
O VÍCIO E O CELULAR
o vazio da tela me atrai
e os aplicativos sempre me distraem
acendo a luz para de novo verificar
o nada que aconteceu no meu celular
revisito sem parar as mesmas coisas,
e são fotos e vídeos e likes repetidos,
não tenho nem mesmo a coragem
de enfrentar a armadilha do feed infinito
se falo de uns óculos ou de um sapato
logo o algoritmo me surpreende os olhos
e as propagandas pululam para mim
enquanto leio textos enormes, e rio de um gato,
se tiver sorte, ouvindo meu telefone vibrar no limbo,
não se mexe: é meu vício, a trama do celular que é detrito.
quarta-feira, 16 de maio de 2018
DEFESAS
DEFESAS
MEMÓRIA
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.
Carlos Drummond de Andrade
Sei que a minha história não interessa a ninguém.
Essa consciência me dá liberdade de contá-la como me
aprouver.
Hoje eu acompanhei minha avó em
uma visita a sua prima mais velha. Essa minha tia-avó sofre há 12 anos de
demência. A figura que contemplei nada me lembra a personagem que criei em
minha cabeça durante as visitas da infância ou através das histórias contadas mil
vezes pela narrativa envolvente de minha avó. A ideia vaga que tenho dela se
esfumaça e contemplo a figura pequena sentada na cadeira. Um quadro melancólico,
a senilidade, a fragilidade de um corpo que antes se apresentava robusto e alto,
a voz vacilante quando era poderosa, potente, um trovão que se ouvia atravessando
a casa declamando seus dois bordões favoritos (“um espetáculo” e “porra!”), o
grotesco terno de uma boca cheio da ausência de dentes que esconde a conhecida
beleza de antigamente, beleza que fechava comércios, beleza que inspirava
luxúria, sensualidade que arrebatou poderosos. Tudo isso, e toda a vida além,
os sofrimentos conjugais, as violências, as belezas da prole, a satisfação da
autonomia, tudo aquilo virou um presente que ela não recorda. Ou pelo menos não
recorda todo o tempo. As acompanhantes nos dizem que, por vezes, ela começa a
recitar um rosário de memórias. São ilhas cada vez mais esparsas, deslocadas
para longe pelos gritos histéricos da demência. É o ocaso, o cheiro de velhice,
o memento mori do Imperador, a
lembrança do futuro. Muito ela esqueceu, mas não esqueceu do amor.
Isso me impressionou. Enquanto minha
avó, talvez constrangida pelo desafio que é encarar o elemento conhecido sendo
transformado e, quem sabe, destruído diante dos seus olhos, mergulhava na insistência
do lembrar e puxava histórias cada vez mais antigas, minha tia-avó observava a
sala e me confundia, vez e outra, com meu bisavô e com meu tio. Encarava o
mundo que se revelava pequeno através da janela do seu cômodo final e
comentava, cotidiana: “vai chover”. O clima, as nuvens, a chuva que nunca mais
sentirá tocar sua pele, olhe lá o risco de uma pneumonia aos oitenta e dois
anos, não é perigo que se corra, ela está muito bem agasalhada em sua cadeira
de plástico, as árvores que balançam na rua deserta. Tudo o mais interessa a
ela, não as reminiscências declamadas por minha avó: as histórias dos carnavais
passados não interessam mais. De alguma forma, ela sabe que o passado está para
sempre à sua mão. O perdido é o presente, e talvez isso lhe interesse mais. O
futuro não existe.
Quando minha avó perguntou, com
seu olhar de bondosa e augusta malícia, de quem mais ela lembrava, a resposta veio
como um raio: “minha mãe”. Foi o mote para sua prima retomar as lembranças que só
tinham efeito naqueles que não vivem no passado, ou naqueles que conhecem o
conceito de passado. Para quem atravessou a ponte do tempo, ontem é hoje. Em
determinado momento, revivendo as complicadas intrigas familiares da prima doente,
minha avó fulminou: “O amor da vida dela não foi nenhum marido, foi Severino.”
Virando-se para ela, indagou: “não foi?”. Mais uma vez o raio, agora um eco dos
trovões da minha memória de menino: “É!”.
Ela lembrava de Severino, um
namorado da juventude, mas não se recordava dos dois ex-maridos ou ao menos se
importava com a notícia da morte deles. Ela não participou muito dos
intrigantes métodos arqueológicos de minha avó. Depois da recordação do amor perdido
da juventude, o amor proibido, talvez o primeiro amor?, minha avó diz que sim, ela
olhou para mim e, percebendo algo que ninguém havia se dado conta, reclamou: “ele
quer ir embora”.
Sim, eu queria ir embora, mas não
pelo tédio de ouvir histórias há tanto amontoadas e perto de serem para sempre
perdidas. Queria ir embora, e demonstrei a inquietação de alguma forma
misteriosa, porque me imaginei no lugar dela. Percorrer para sempre os mesmos
corredores e conquistar, de novo e de novo, os mesmos reinos, destronando os
mesmos senhores. Lutar em vão com o esquecimento. Perceber a inutilidade do não
sentir. Construir pontes elevadas por cima de toda vivência cotidiana
posterior. O prazer do detalhe aumentado por óculos enormes. O coração que se
expande até o infinito e para de bater. Ter oitenta e dois anos e dizer como um
raio quando alguém perguntar “ele foi o amor da sua vida, não foi?”: É!
Defesa da lembrança
Hoje eu acordei entre tremores e
choros presos. O sonho recorrente me assaltou mais uma vez. De novo nos reencontrávamos
para debater, como senadores capitolinos, o destino do nosso passado. Sou
assombrado pela lembrança do não ocorrido. Um ponto nevrálgico do meu novo
cotidiano, do meu novo normal. Até quando deverei ser refém do passado que quer
ser lembrado? O tempo passa sem fazer seu trabalho de sepultura total. Haverá
sepultura total?
Uso um exemplo da minha própria
caminhada (metáfora de-fi-ni-ti-va da vida). Há anos, oito, se não me engano
nas contas, beijei pela primeira vez um rapaz. Escrevi “menino” e apaguei, mas
a verdade é que éramos dois meninos, eu muito mais moço do que o outro, embora,
em idade, fosse mais velho. Meus lábios meio fechados eram claras demonstrações
do medo e da excitação. São histórias para outro momento, não vamos entrar aqui
na trilha do desejo.
O ponto é: depois da difícil autoaceitação,
eu me apaixonei pelo rapaz dos primeiros beijos. Na época, histriônico, achei
que estava enlouquecido de amor. Foi com prazer mordaz que senti o filete de
sangue manchar a corda que segurei com mais força do que a necessária. Achei
que era amor e, de alguma maneira, foi um amor juvenil, importantíssimo no momento,
mas poeira na história do tempo.
Anos se passaram e Ele aconteceu
cheio de seus Antes, Durantes e Depois. O rapaz da boca macia há muito havia se
perdido no breu das matas do inexplorado e habitava, como é preciso com todo
primeiro amor (e ele o era, de fato, um primeiro amor de homem), o altar do
idealizado. A vida acontece de formas divinas: inescrutáveis, inconsequentes e
inadivinhadas. Reunimo-nos de novo. Foi um choque, admito, revê-lo depois de
éons, mas foi um exercício de futuro. Meu coração nem farejou o animal
adormecido. Nenhum intumescimento, apenas a ternura do Eu que fui. Foi o
reencontro com a doçura da história que criei apenas na minha cabeça.
Pobrezinho, o rapaz nem suspeitava das minhas lágrimas ou das músicas que lhe
dediquei e que dedilhei com pastoral ingenuidade durante os anos de aparte.
Que exercício de futuro! Salvemos
as proporções que o coração dá ao recém-acontecido-ainda-sonho-com-isso.
Salvemos os anos de convivência e a formação de um caráter. Salvemos o castelo
vazio e o vinho derramado. Salvemos e ignoremos as alfaias sagradas rasgadas no
templo. Salvemos do chão o pó das sandálias. Salvemos a dor que escorre do
ombro. Salvemos, enfim, todo o sentimento. Ele, o Ele eterno do hoje, também estará
perdido? Ou daqui a oitenta e dois anos lembrarei dele com o mesmo afinco?
segunda-feira, 7 de maio de 2018
NOSSO ÚLTIMO POEMA
NOSSO ÚLTIMO POEMA
uso seu perfume
como quem morre
um pouco a cada dia
vingança só minha:
te matar
te mantendo vivo
há pouco chegou
aos meus ouvidos
a notícia da sua morte
e a sua morte,
para mim,
tem a aparência
do seu sorriso
a cama que você deitou
não mais existe
as sandálias que você deixou
não cabem mais nos meus pés
os livros que você me deu
estão brancos e nunca foram escritos
tudo o mais
é migalha na estrada
são restos por mim cuidados
a forma minha de frágil amparo
a forma de não te perder
num adeus continuado
mas seus pés são grandes
e curto é o caminho:
a notícia de sua morte
há pouco me deixou
sozinho
eu pousei a pena
porque tudo está consumado
e minha mão que foi seca
porta agora as bênçãos
que você ignorou
7/5
há que se ressaltar meu vago sobressalto quando te vi. o fim está consumado, não espero nenhum milagre, nem mesmo quero o fogo, não quero ser salvo. te vi de longe, e você estava frágil e fraco, mas rodeado, e isso parece muito bom, parece que está tudo bem, então segue o voo, ave sem asa, que eu guardo as penas que encontrar na estrada. o cansaço já é maior que qualquer coisa. hoje é o fim da navalha.
sábado, 7 de abril de 2018
ODE À FRIEZA
ODE À FRIEZA
é preciso coragem
para unir as mãos
e estrangular o amor
que ainda pede perdão.
é preciso ser guerreiro
linhagem ancestral
é preciso ser inteiro
para assinar o rito final.
é preciso não ter sangue
para cortar o velho coração
e não ousar ouvir nem um sibilo
nos despojos da compaixão.
é preciso saber o futuro
com os olhos presos no não
para ignorar os gemidos
e desbravar a solidão.
é preciso ter desejos
para navegar um novo chão
é preciso ser veleiro
quando o mar se torna grão.
é preciso ser perfeito
para enfrentar o grande amor
e com o ardor de outros tempos
dizer que acabou.
7/4
aniversário de morte.
domingo, 11 de março de 2018
RECAPITULAÇÃO III
Estou cansado de reviver apenas a
tua morte, quando a nossa vida foi tão longa e criou-se vasta nas planícies de
parreiras. Mas o que resta fazer, quando A Eternidade se aproximou em uma
carruagem de fogo e espalhou labaredas como se fossem água? O fim foi maior que
o nascimento de Deus. Por isso, estar preso na ausência, na falta, no cheiro do
corpo morto, na impotência dos anjos caídos.
Não alcanço o mundo para onde
você transferiu os palácios que um dia foram meus. E que contentamento sentia ao
caminhar silencioso pelos conhecidos mármores. A arrogância dos sábios,
construída no balanço tedioso do amor, flutuava como manto. Alojado na
distância do tempo, posso enxergar que a terra é definitiva e a pedreira ocupa
seu espaço no esquecimento com consciência e determinação. Luto para não ser
mais um vencido pelo tempo, mas é um fracasso bíblico: filho de Jacó, não
conseguirei ferir o Anjo, criatura que derrotou muitos outros maiores e
melhores do que eu, habituados ao jogo de sedução do ruflar das asas por vezes
demoníacas. O tempo é Deus e Deus há muito resolveu abandonar as cadeias
limitantes da onipotência. Beberei eu também as águas de um Lethe envelhecido.
Não será o fim porque mesmo após
o esquecimento do nome, o maior possível, segundo o poeta, você continuará
existindo. Meus escritos não foram pintados na areia dos Tamoios, não foram
cantados por Pã, não foram guardados por Jonas no ventre do Grande Peixe.
Escrevi com sangue e com sangue vivi minhas verdades. Você se entranhou em mim
com a paciência dos fios de Penélope, única metáfora possível, única mulher
existente em mim. Assisti emocionado seu trabalho tal qual a Madalena curvou-se
perante o Cristo, que era eu, com suas lágrimas e seus perfumes.
A distância agora é maior que
nossa história. Meu coração já se acostuma ao cheiro de velho insensível do
tempo, o grande algoz que todo amor destrói, até mesmo o Divino. Qual Deus
esperará a salvação? Qual Deus tem paciência de encarar a sua própria criação?
Qual Deus se submeterá às suas leis? Qual Deus morrerá como supõe o tempo? A
solidão dos altares é a nossa resposta.
RECAPITULAÇÃO II
Nem mesmo o mais desterrado
degradado passa seu cárcere em permanente contemplação. É daí que surgem os
jogos mais perigosos da mente, a decisão entre a tentativa de não se afogar nos
desvarios, no delírio, e usar a força dos braços cansados para boiar diante dos
rastros do naufrágio. O jogo solitário, sem ramificações ou reverberações, se
construiu no completo caos. A complexidade das tramas fez o próprio Dédalo se
perder em seu labirinto. Não existe saída possível, pois ainda não nasceu Ícaro
e o Sol não se decidiu pelo fim da humanidade. O jogo solitário acontece nas
dimensões oferecidas: engolir água enquanto boia nos restos do navio.
Em algum momento, todas as
lembranças que navegavam sutis foram se espalhando na inevitabilidade da
acomodação. Restou uma viga de ferro, desafiando as leis e agindo como floco de
ar nas ondas sedentas. É onde se agarra o velho marinheiro. Seu semblante calmo
esconde a revolta humana: ele também está vulnerável ao tempo, ao renascimento
proposto pela destruição. Em algum momento, a natureza lembrará de suas regras
e o ferro condensará o peso das lágrimas. E o amor será feito de águas de
naufrágio. Como todas: azul.
A quem a paciência recompensa? Ao
tolo, ao sábio, ao filósofo habitando o antiespaço? Ao santo, ao homem, ao que
persevera com os pés descalços? A paciência a alguém recompensa? Ou a paciência
é uma trama urdida pela mente mais maliciosa de Deus, Aquele que é Todo Bom,
para vencer o mais atento, o que espera a mentira diante de nenhum estímulo? É
onde encontramos agora a impulsividade daquele que já foi poeta e agora é
amargura. Nenhuma palavra a mais é necessária em uma terra árida e saturada de
águas fundas.
O corpo morto vai cumprindo as
ordens e se decompõe. A cada dia vai ficando mais diferente, irreconhecível, o
cadáver rígido se fez dançante, temos até provas da sua diferença alegre,
pegamos Deus com a boca na botija e todos os crentes se desfazem em lágrimas.
Morreu Pã, nasceu algum menino em algum lugar estrelado, ainda não sabemos no
que dará, se é que dará em algo, mas para sempre morreu aquele Outro. Avisam
agora que não morreu na hora do beijo escondido, o pérfido beijo, o beijo
pingando perigos, o beijo entre bocas decompostas, a água salobra. O amor morre
aos poucos e por isso o corpo morto vai se decompondo em flores novas. Talvez
eu seja o túmulo.
Nunca fingirei que você não foi
meu primeiro amor. Nunca agirei como se você fosse um desconhecido, ainda que
anos se passem e você não seja mais o pó das sombras das minhas lembranças.
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