- guia de um ordinário vernáculo -


domingo, 14 de fevereiro de 2010

Cartas Errantes II

http://asminhasbreguices.blogspot.com/2010/02/cartas-errantes-o-inicio.html


Minha querida,
Devo confessar que ao ler sua carta eu ri e chorei. Ri por sermos tão iguais e chorei porque suas reflexões rápidas foram tão profundas que tocaram no âmago de minha alma dolorida. Isso deve parecer estranho, mas a verdade é que estou muito sensível por esses dias.
Passei o dia lendo e sofrendo. Sofrer é uma coisa muito ruim. Dá uma dor forte no peito, uma vontade de gritar, a respiração fica suspensa por um instante, o corpo todo se contrai e permaneço assim por uma eternidade... Aí então eu falo “ai!” e choro. Isso se repetiu várias vezes hoje, e estou cansado.
Então eu leio. Porque quando eu leio não existo mais para o mundo. Podem vir falar comigo e eu não vou ouvir. Amo ler deitado. Não sinto sono, muito pelo contrário: essa posição só me ajuda a entrar na história. Hoje li excessivamente “Cartas da prisão” de Frei Betto. É sobre o tempo da ditadura, um horror. Estou me sentindo um preso. Igual a ele. Ai, amiga, que vontade louca de chorar mais uma vez.
“Já é carnaval, cidade! Acorda pra ver!”. Uma amiga cantou essa frase para mim há alguns dias. Enquanto a cidade brinca e é feliz nessa festa loucamente animada, eu morro. Estou numa tristeza de morte e só ler me faz ficar bem. Ler me faz esquecer de mim mesmo. Estou fugindo de tudo que me faça pensar em mim. Por isso não ouço música. Música é sentir dor.
Meu dia foi doloroso, querida amiga, e agora tenho vontade de jogar essa carta pela janela para que o vento possa levá-la até você. Um desejo incontrolável de defenestração. Eu defenestro, tu defenestras, eles defenestram, e assim até a loucura.
Sabe por que me sinto tão à vontade para desabafar com você essas minhas dores da alma? Porque “a perspectiva de me comunicar com alguém assim, sem as barreiras criadas pela familiaridade, é tão excitante!”... Aqui, nessa carta, posso dizer que estou prestes a morrer, choro três vezes ao dia, grito de dor várias vezes por dia, tento não pensar em nada o dia todo. É pior que tortura.
Você apareceu na minha vida na hora certa, mas agora eu preciso ir dormir. Vou fazer um longo passeio nos sonhos. Amanhã o dia será vazio. Só precisarei trabalhar na quinta. “Já é carnaval, cidade!”.

Com amor,

E.

1 comentários:

Letícia disse...

http://asminhasbreguices.blogspot.com

p.s.:a minha formatação ficou feeeia ç.ç computador dos infernos.

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