- guia de um ordinário vernáculo -


domingo, 19 de agosto de 2012

MYSTERIUM FIDEI


MYSTERIUM FIDEI

mundos inexplorados
ventos e risos inoculados:
existe a loucura em mim.

existe a tentativa do viver
longe e diferente
e tentar por teimoso
lutar contra minha própria mente
fazer verso rima escrever na folha
minha falsa força
minha força crente.

e tudo
tudo que dentro de mim
me diz
“nem tente ser diferente”
por que já ele sabia que eu
haveria de querer mudar
e sabendo disso me pregou
divina peça
me fazendo do reverso avesso
para que lutando contra mim
fosse desaguar onde podia
para conhecer-me
amar-me a mim
desfazer-me
onde eu deveria
onde ele queria,

que ludibriar Deus
não é tarefa
do dia a dia.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A QUEM INTERESSAR POSSA


A QUEM INTERESSAR POSSA

se te interessa tanto, eu busco ser feliz
e não aceito ninguém me dizendo que isso não condiz
e não vou sorrir ao ouvir sua síndrome de juiz:
minha vida não é a sua, não te cabe me definir.

a minha existência não vai ser determinada por
seus cálculos errados e ultrapassados
e a sua preocupação pode até ser legítima,
mas é agressiva: quem te deu o direito
de esmagar a minha lida?

meus braços estão aqui, meu coração está aqui.
não vou assumir invalidez, minha alma balança mas é firme.
talvez você ache que uma divina revelação te deu razão:
ledo engano, com Ele também já discuti e não achei
reclamações.

não use seu chicote, não te mato nem te roubo,
só você pode se acabar. não entre na minha cama:
nela só eu posso deitar. não me culpe nem se culpe,
viva seu apogeu, viva seus próprios medos
que com os meus eu sei lutar.

pode me amar e me abraçar, mas não tente
me sufocar: por mim eu mordo, morro, mato,
viro zorro, sou cafona e até político.

não vou viver desiludido.


09/08/2012

domingo, 29 de julho de 2012

RESIGNAÇÃO


RESIGNAÇÃO

reparei agora
que vamos
todos morrer

e que mais dia
menos dia
irão todos
esquecer

que hoje eu
brinquei de correr
atrás de você

e nossos risos
- ninguém viu.

não há mais porque sofrer.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

CLEPSIDRA


CLEPSIDRA

talvez seja a estabilidade
talvez seja a falta de drama
talvez seja o calor e o frio
e os ônibus, o medo e os ritos
talvez seja esse talvez
que coloquei na cabeça:

‘talvez eu possa
um dia’.

talvez eu seja mesmo bobo
é certo que eu sou mesmo tolo
mas é que eu acho que minha
poesia é pra depois

e que o agora, quando não
se enche de poema,
é perdoável.

o erro é talvez achar
que o meu agora
um dia irá embora.

não, meu agora fica
e preciso entender 
que não é só ponto 
de partida.

13/07/2012

quarta-feira, 20 de junho de 2012

SAGRADO BILHETE


SAGRADO BILHETE

as poesias que eu repito são
as minhas verdadeiras orações.
as que não revelo ao papel e
ficam presas dentro de mim
são meus verdadeiros pedidos
de libertação.

aqui é lei marcial, é guerra,
não há bandeira de paz.
sou fruto dos saques das batalhas
e mesmo no silêncio minha voz
ecoa errada.

me insulto. me acho absurdo.
não há alma para prostituir.
seu mérito de me ter acolhido
há muito foi consumido pelas
loucuras da sua ira.

estou errado de achar que meus
aliados são meus inimigos e choro
pelo seu futuro solitário e mudo.

minhas orações são escritas
e empilhadas em bilhetes dobrados
e a minha diferença é que
não os enfio em fendas ocultas do
muro das lamentações:

jogo aos olhos despidos de vendas.
ao vento dos que podem entender.
me protejo com palavras vacilantes.

espero que Ele possa me defender.

20/06/2012

segunda-feira, 4 de junho de 2012

EXERCÍCIOS


EXERCÍCIOS

nunca fui tão não lembrança.
nunca fui tão cheio de reticências.
de pontos. De letras. Maiúsculas.
nunca fui tão cortante, forte, novo.
jovem. contente. calmo. transeunte.
silente. nunca fui tanto ser. presente.
ausente de outro eu. mim. erros de
mim. de ti. de tus e talvez do sempre
renitente. lembrete. poema que se
repete. nunca nunca nunca acaba.
vida. repetição. estrada sem final.
sem acabamento, sem o usual.
a rima, o fatal. nunca fui tão crente.
gemente. clemente. acostumado
com o que se sente.

nunca fui tão paralisado.
nunca fui tão alegria.
nunca fui tão impotente.

nunca me acostumei a jogar
o tal jogo do contente.

04/06/2012

quinta-feira, 24 de maio de 2012

DO TEATRO

DO TEATRO


antônia, ele quer fazer teatro. que você não deixe. depois se perde e vira um desses. vê, vira um desses, deus é mais. acho que foi aquele professor que deixou ele assim, com as ideias doidas. meio assim, não sendo. meio deslocado. foi o teatro, certeza. pode ter certeza. antônia, não deixa esse menino fazer teatro, antônia. não vê que depois vira um desses e depois adeus, se perde sendo mais um vagabundo por aí? depois, antônia, vão dizer que a culpa é sua. e que vergonha não vai ser, hein? que vergonha, antônia, pra nossa família! se seu filho der pra ser desses. atores. e... ai, não quero nem pensar, que tristeza pra um pai, pra uma mãe. ai, antônia, minha filha! eu te dei uma boa educação, antônia, educa esse menino! vai que ele toma gosto e acha bonito viver de ar, antônia. ele já é estranho, antônia. ele gosta de poesia. dá juízo, educa, limita! antônia!

ele quer fazer teatro, antônia!

não deixa
esse menino
se libertar.

 não deixa ele pensar, antônia.



não deixa.

ele
s   a   l   t   a   r   !

terça-feira, 15 de maio de 2012

DO VIVER EM AMOR


DO VIVER EM AMOR

há que se tropeçar.
quem é que sempre fica em pé?
na nossa vida,
terra e pó e sorrisos e choros.
então vê, não há que se
ficar sempre em pé.
renunciamos a divindade
e então o nosso coração bateu.

há que se errar há que se chorar.
foi por isso que não quisemos mais
ser anjos arcanjos santos.

perdoamos e então
somos pastores e marinheiros
construímos pontes e dores:
somos amores.

há que se perdoar.
por que erramos.
por que tropeçamos.
por que queremos, amor, e confiamos.

15/05/2012

quinta-feira, 10 de maio de 2012

DISCERNIMENTO INCÔMODO


DISCERNIMENTO INCÔMODO

se sou essa pessoa assim
sazonal
que muda de humor conforme
as nuvens que cobrem meu caminho
e prefere o frio mas quando o frio vem
faz uma oração pelo calor que sufoca,

se sou essa pessoa assim
instável
que de tanto proclamar dogmas
encontrei a pedra angular que nem os
pedreiros insanos loucos rejeitaram
e agora nem a brisa me balança,

se sou essa pessoa assim
ferida
pela chuva que molha meus sapatos
e pelos ácidos comentários que dispersam
meus contatos com as inúteis forças
que engrandecem qualquer coisa,

é bem claro que os dias não
se quedaram maduros nos galhos
das minhas mãos

e que a minha poesia
é como a minha vida

ainda está
em
formação.

10/05/2012