O GRITO
ainda não ouvi
meu grito de loucura
e o gesto que farei
quando decidir que basta:
meu grito é fruta verde no pé
o olhar sedendo
a boca aberta
a ânsia santa de conhecer
todo pecado.
domingo, 3 de agosto de 2014
O GRITO
segunda-feira, 2 de junho de 2014
FLAMBOYANT
FLAMBOYANT
perdidos entre flores raras
abrasados sob o clarão vermelho
cores que ninguém ouviu
a hesitação e o beijo
os livros queimando
as testemunhas silenciosas
nem os fantasmas lembram
que um dia existimos
mas você resolveu ficar
o vento nos petrificou
em estátuas de mármore:
mas somos feitos de sal
de nossa escultura quebrada
não ficou nada sob a flor:
não ficaram seus sussurros
nem minhas fugas sem rumo
nem meu apelo banal.
terça-feira, 27 de maio de 2014
DESOLAÇÃO
DESOLAÇÃO
o silêncio marcado a fogo
bocas torcidas, dedos feridos
olhos estéreis
solo e sal
em sua lista costurada
o nada que sangra
e minhas veias entupidas
de vazias esperanças
o fogo inconstruído
língua, névoa dolorida
sua figura que grita
e o olhar ensaiado
antes só dado
a gigantes suicidas.
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sexta-feira, 9 de maio de 2014
FINALIDADE
FINALIDADE
iniciou-se o mundo
há sete dias
através de algumas
palavras
e foram eras formadas
na loucura do desejo
a espera insone
o olhar desperto
a hesitação que
precede toda queda
o pensamento
enlaçou dias
e o pó das sandálias:
estradas tortas
no fim
ele não me segurou
quando desapareci
e o amor de sete dias
foi cera de vela
não restou muita coisa
depois do último beijo
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segunda-feira, 28 de abril de 2014
ELOGIO
ELOGIO
em dias como esses
me sinto irremediavelmente vivo
e a certeza me devora
com a força do vento que me assusta
não cumpri ainda nenhuma promessa
e minha vida se arrasta às pressas
meu corpo reluz de culpa
sim, estou errado e não me dói a consciência
pensamento atroz e dolorido
sou uma estátua de mármore
cheia de curvas e roupas enfurnadas
deu-me Deus a dúvida dolorosa
de não saber por qual estrada perco-me
(estava de olhos fechados quando
cheguei ao portão)
morrerei um dia mas sussurra-me alguém
que não é hoje e suspiro:
ainda há tempo de me arrepender
e por isso ignoro os olhares e a cobiça
enquanto tento chamar sua atenção
o que dói em toda gente é a certeza
de que em todo tempo a humanidade
perde um pouco de si:
penso todos os dias na morte
e alguns me repreendem:
ainda sou novo para isso
meu pai um dia me chamou
de velho e foi o melhor elogio
que já recebi:
eu sei que ela
me espreita
logo ali.
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quinta-feira, 10 de abril de 2014
SEGREDO
SEGREDO
é difícil guardar
segredos
de mim mesmo
existem coisas que
eu não posso saber
por exemplo:
eu olho para
você como
quem não olha
olhar para você
é meu sussurro
no ouvido
beijar os dedos
e prometer silêncio
não me conto
que te sonho
e por isso
não existo.
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
EXPLICAÇÃO
EXPLICAÇÃO
se falo de amor
e rimo as cores do coração
com a angustia de toda paixão
ou se corro de Deus
só para suplicar de novo
o seu perdão
ou se acho besta a disposição
das pedras e os rostos deles
quando me dizem: ‘esqueça’
ou se homens morrem nas ruas
explodindo com câmeras nas mãos
e todos os dias todos discutem e curtem
a dança da posição e o contorcionismo da oposição
ou se me cansa falar do outro como se fala por aí
todos muito cheios de si a proclamar que a poesia
muda o mundo mas eu mesmo nunca li
ou se me calo diante dos meus irmãos que morrem
por calçarem os saltos que trazem dentro de si
ou se às vezes eu acho que o mundo foi feito pra mim
e me inclino sem saber diante de pessoas que escolho
para me superarem e pisarem com força bem assim
ou se eu volto de novo ao amor
e invento um velho novo amor
e se tudo que eu falo é sobre ele
é porque eu só sei de mim
e sentir os outros ainda
é muito esforço:
tentativas que não
cabem aqui.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
CANÇÃO SUSSURRADA AO OUVIDO ou GRILHÕES DO OFÍCIO
CANÇÃO SUSSURRADA AO OUVIDO ou GRILHÕES DO OFÍCIO
porque eu sei
que tudo será
silêncio
vivo através
dos risos
preparando
o tempo e o auxílio
- gritos às vezes
falam pouco –
meu dizer é no olho:
reticências
do exílio.
domingo, 5 de janeiro de 2014
ESCRITO A FÓRCEPS
ESCRITO A FÓRCEPS
deslizo e não prossigo
caminho e não consigo
abrem-me as comportas
deus me fecha o portão
a escrita é a minha
verdadeira maldição
sinto o impulso e o bloqueio
a dor de gozar o gozo preso
meu coração que palpita
um fumo preto
e as espirais de letras mortas
arranco os poemas forçosamente
às vezes suo e me canso vencido
escorrego para dentro do abrigo
o esquecimento que carrego comigo
o poema que não me consome
e me deixa com esse gosto
de trabalho inconclusivo
ainda não é meu:
resta sentir na boca
da alma aquele soco
que incendeia as
tentativas dolorosamente
primitivas:
o poema que não dói
ainda não sofreu.
domingo, 20 de outubro de 2013
CORAÇÃO
CORAÇÃO
a noite seduzirá
de forma implacável
o meu silêncio
o olhar que procuro
mira o escuro
e está perdido
muitas tentativas
são feitas de brincadeira
mas batem num muro
erguer depois da língua
é ferida borbotoante
corrida descompassada
não esqueço a fuga
o panteão despedaçado
meus olhos ardentes
a consciência nula
de uma existência
que oscila
por trás disso
maquina tudo, impávido,
uma bomba química:
explodo você.
vinte de outubro de 2013.
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