- guia de um ordinário vernáculo -


segunda-feira, 28 de abril de 2014

ELOGIO

ELOGIO

em dias como esses
me sinto irremediavelmente vivo
e a certeza me devora
com a força do vento que me assusta
não cumpri ainda nenhuma promessa
e minha vida se arrasta às pressas
meu corpo reluz de culpa
sim, estou errado e não me dói a consciência
pensamento atroz e dolorido
sou uma estátua de mármore
cheia de curvas e roupas enfurnadas
deu-me Deus a dúvida dolorosa
de não saber por qual estrada perco-me
(estava de olhos fechados quando
cheguei ao portão)
morrerei um dia mas sussurra-me alguém
que não é hoje e suspiro:
ainda há tempo de me arrepender
e por isso ignoro os olhares e a cobiça
enquanto tento chamar sua atenção
o que dói em toda gente é a certeza
de que em todo tempo a humanidade
perde um pouco de si:
penso todos os dias na morte
e alguns me repreendem:
ainda sou novo para isso
meu pai um dia me chamou
de velho e foi o melhor elogio
que já recebi:

eu sei que ela
me espreita

logo ali.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

SEGREDO

SEGREDO

é difícil guardar
segredos
de mim mesmo

existem coisas que
eu não posso saber

por exemplo:
eu olho para
você como
quem não olha

olhar para você
é meu sussurro
no ouvido

beijar os dedos
e prometer silêncio

não me conto
que te sonho
e por isso

não existo.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

EXPLICAÇÃO

EXPLICAÇÃO

se falo de amor
e rimo as cores do coração
com a angustia de toda paixão

ou se corro de Deus
só para suplicar de novo
o seu perdão

ou se acho besta a disposição
das pedras e os rostos deles
quando me dizem: ‘esqueça’

ou se homens morrem nas ruas
explodindo com câmeras nas mãos
e todos os dias todos discutem e curtem
a dança da posição e o contorcionismo da oposição

ou se me cansa falar do outro como se fala por aí
todos muito cheios de si a proclamar que a poesia
muda o mundo mas eu mesmo nunca li

ou se me calo diante dos meus irmãos que morrem
por calçarem os saltos que trazem dentro de si

ou se às vezes eu acho que o mundo foi feito pra mim
e me inclino sem saber diante de pessoas que escolho
para me superarem e pisarem com força bem assim

ou se eu volto de novo ao amor
e invento um velho novo amor
e se tudo que eu falo é sobre ele

é porque eu só sei de mim
e sentir  os outros ainda
é muito esforço:

tentativas que não

cabem aqui.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

CANÇÃO SUSSURRADA AO OUVIDO ou GRILHÕES DO OFÍCIO

CANÇÃO SUSSURRADA AO OUVIDO ou GRILHÕES DO OFÍCIO

porque eu sei
que tudo será
silêncio

vivo através
dos risos
preparando

o tempo e o auxílio
- gritos às vezes
falam pouco –

meu dizer é no olho:
reticências
do exílio.


domingo, 5 de janeiro de 2014

ESCRITO A FÓRCEPS



ESCRITO A FÓRCEPS

deslizo e não prossigo
caminho e não consigo
abrem-me as comportas
deus me fecha o portão
a escrita é a minha
verdadeira maldição

sinto o impulso e o bloqueio
a dor de gozar o gozo preso
meu coração que palpita
um fumo preto
e as espirais de letras mortas

arranco os poemas forçosamente
às vezes suo e me canso vencido
escorrego para dentro do abrigo
o esquecimento que carrego comigo

o poema que não me consome
e me deixa com esse gosto
de trabalho inconclusivo
ainda não é meu:

resta sentir na boca
da alma aquele soco
que incendeia as
tentativas dolorosamente
primitivas:

o poema que não dói
ainda não sofreu.

domingo, 20 de outubro de 2013

CORAÇÃO



CORAÇÃO

a noite seduzirá
de forma implacável
o meu silêncio

o olhar que procuro
mira o escuro
e está perdido

muitas tentativas
são feitas de brincadeira
mas batem num muro

erguer depois da língua
é ferida borbotoante
corrida descompassada

não esqueço a fuga
o panteão despedaçado
meus olhos ardentes

a consciência nula
de uma existência
que oscila

por trás disso
maquina tudo, impávido,
uma bomba química:

explodo você.


vinte de outubro de 2013.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

UM HOMEM ME INSPIROU DE LÁ DA ESPANHA,

UM HOMEM ME INSPIROU DE LÁ DA ESPANHA,

e eu não temi a morte
mas lamentei o tempo
e minha incapacidade

me senti tão outro
que chorei o amor
de outro e suspirei
no seu lugar

foi como capturar
um vento de viagem
- um daqueles que
nos dizem que você
pode voar,
mas nunca ficar -

e eu entendi por inspiração
que a poesia está deitada
nua e esparramada
esperando meu beijo
meu aceno
meu aperto ali no chão:
 
um homem sorriso
andando e com o coração
fincado no mundo velho
me disse com suas linhas
construídas

tudo o que
a poesia
queria

e a poesia
me queria,

foi o que
me disse
o homem
e as suas
fotografias.

02/10/2013

terça-feira, 10 de setembro de 2013

TRAJETÓRIA



TRAJETÓRIA

eu e o meu amor
nos deixamos
pelo tempo
de um corte
de cabelo

agora a batalha
se decide
no crescimento
dos cachos
e de sorrisos
não dados

nossa ponte
é frágil
até a próxima
lua cheia

quando a tesoura
talvez tentará cortar
nossa cadeia

nos cabe ser
como nunca:
sangue
luz
pedra
centelha.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

DAS COISAS QUE ME ESPANTAM NO AMOR


DAS COISAS QUE ME ESPANTAM NO AMOR

Me espanta no amor essa sua capacidade de mudar. E então quando o amor muda a vida parece que fica surda e insiste em continuar. O amor num dia grita no alto de uma montanha que é para sempre, que veja só, nosso amor é corrente. Me espanta no amor essa sua capacidade de mentir. E de seguir em frente. Promessas e lembranças viram pedaços esquecidos nas gavetas e tudo vira dança dança dança. Vento passa e o amor muda, amor me espanta por ser vazio quando deveria insistir em ser cheio. Amor me espanta por fazer feliz e de repente enlouquecer e partir. E então me espanta muito isso do amor fazer chorar. Isso sim é mistério. Amor de um vai pro cemitério e em outro o luto continua, vira um caso sério. Louco louco louco. Louco de não conseguir clarear o sol ou de andar reto nas calçadas. Amor aprisiona represas e gosta de ser medieval, criando monstros dentro do coração: cabeças enormes de saudades e nenhuma disposição de saciá-la. Amor é louco quando acaba e em um coração distraído continua a pulsar. Não, ele grita, não vou deixar acabar! Isso me espanta mais que tudo no amor: o amor enlouquece, mas quando a gente vira caso de mercê, de prece... Vem o amor com a cara mais limpa do mundo e lhe beija a face, diz ser fecundo: e tudo vira caso de um esquecido bêbado vagabundo. Pronto para recomeçar.



sábado, 24 de agosto de 2013

POÉTICA DA SEPARAÇÃO



POÉTICA DA SEPARAÇÃO

quando meu peito exala dor
mas meus olhos gritam por ar
e meu corpo se contorce por cor
minha boca deve gritar.

quando pensar for inútil
e restar apenas o existir
e o mundo silenciar a música
terrível é ter que sentir.

quando lembranças arranharem
e encontrar letras perdidas for soco
caminharei para o abismo
aqui dentro ainda é oco.

quando tudo se tornar ontem
e os milênios me deixarem
talvez a esperança nasça:
amanhã se constrói no pouco.